Vezes Mil

Foto: Fabíola Lourenço
Foto: Fabíola Lourenço

Engraçado essa coisa de se notar feito aos pedaços, um todo repartido, sabe-se lá em quantos cacos. Ser assim me parece bom negócio, em certo ponto até alivia. Porque, pensa comigo, mesmo que alguns traumas bobos te dilacerem vez ou outra, quase ao ponto de te matar, ainda assim, outras partes tuas permanecem intactas. Mesmo que a razão te traia por dois segundos, ainda assim teu coração manda seguir.

Como se fôssemos uma casa feita de muitos quartos, mas de portas que não dão uma pra outra, meio que como um trem de infinitos vagões, mas com janelas que só se abrem para a paisagem. Sofrer parece dar até menos trabalho. Viver feliz, nem se fala! Os estragos nunca vêm em cadeia. E assim fica tão mais fácil consertar-se, juntar os pedaços, já imaginou?

É como se o equilíbrio fosse inevitável. Nem muito pesado aqui nem levíssimo lá. Nada capenga, tua vida na medida. Fragmentos que não se conversam ou elementos que se protegem, muitos num só ou apenas um querendo sobreviver.

Pra Viagem

Pra Viagem
Foto: Fabíola Lourenço

Onde mesmo foi parar aquele instinto todo de construção?
Em que ponto nos tornamos isto?
Coisa precipitada que mal deseja e já quer consumir.

Mania feia essa de querer tudo pronto, meu Deus.
Das relações, não mais o instante e a libido, só o princípio e fim.
Como a gente consegue?

Pois que me permitam gostar do inacabado.
Não tenho pressa alguma. Optei pelo devagar.
Todo tempo do mundo, aliás, é o que disponho.
Que compreendam meu apego pelo disforme.
Que não reparem quando o incompleto eu decidir amar.

Me deem o direito de não ser pra agora.
De ser projeção, paciência, sonho, apenas parte.
Peça por peça, caco por caco,
uma
coisa
de
cada
vez.

O amor é um ciclo

O Amor é Um Ciclo
Foto: Fabíola Lourenço

Troquei as toalhas, os lençóis manchados, até roupa nova, veja bem, eu botei. Os velhos móveis de outros impregnados, absolutamente, todos espanei. Nas cortinas, novos ventos batem. E nas paredes, envelhecidos segredos dormem.

Alma despreocupada. Janelas arejadas. Portas escancaradas. Algumas cicatrizes reboquei, outras, pintei. E aquelas que em mim os amores carentes causaram, ai, já nem sei… vai que elas ainda estejam por aí, vagando pelos cantos da casa e só a mobília escondeu. Mas isso não te cabe! Aliás, nem a mim nem a ti. Dizem que aos dias, que aos anos, que ao tempo. Sendo assim, esperarei!

Tu, por enquanto, deves te importar só com o que visível eu deixo. Que notes minha sede, acaricies meus sorrisos, que cantes comigo novos versos e abraces meus desejos. Porque meu coração levemente já respira, acredite, à espera de tuas notícias que em breve chegarão, eu sei.