Casa Aberta

Foto: Petterson Farias

As pessoas demoram a acreditar nas rupturas. Já vi muitos amigos padecendo, por tentar levar às últimas consequências relações que poderiam acabar de forma amigável, só por achar que, por algum poder superespecial, conseguiriam reverter desgastes irremediáveis.

Não há nenhum mal em se afastar, em ser franco consigo mesmo e com o outro ao admitir que as coisas não se encaixam mais como antes. E outra: afastamentos e rupturas não precisam ter prazo de validade, pelo contrário. Algumas vezes, quando rompi com alguém, tempos depois, a conexão perdida foi retomada e de maneira ainda mais incrível. Isso porque o tempo que perderíamos somando ainda mais desgastes, aproveitamos para amadurecer; para dialogar com gente diferente; para oxigenar a alma com estímulos novos; e se dar conta, por fim, de que aquele relacionamento era sensacional, a gente é que não tava num bom momento para insistir.

“Ah, mas numa dessas, a pessoa pode ir e nunca mais voltar”. E quem tem o controle disso? Prendendo ou não, todo mundo tem o direito de ir e nunca mais voltar. Isso independe de mim. Entender isso é tirar uma tonelada de peso das costas e, mais leve, a gente consegue seguir. Algumas vezes, seguir junto por muito mais tempo, outras, até pra sempre, mas sem receio, sem neura, sem medo. Amigo, colega, namorado, esposa não são propriedades. Tem hora que sintoniza, pluga, casa, e é massa! Mas tem hora que não, paciência! E a nossa vida, não canso de repetir, é casa de portas abertas: as pessoas têm mais é que entrar e sair quando bem entender.

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Excesso

Foto: Petterson Farias
Foto: Petterson Farias

Hoje nascer, crescer e morrer não basta. Um intervalo e tudo muda. Ufa! Ainda bem! Mas pra cada caminho definido, mil renúncias que inquietam. E se? Quantos se’s só nesse dia já atormentaram o juízo da gente? Entre negócios, abas, selfies, compromissos, planos e viagens, não sobra tempo pra contar.

Uma me ama, mas a outra é tão linda, não custa experimentar, né? Lá parece menos violento, mas morar longe da família? Passei em exatas, mas Medicina também é meu sonho. Eu gosto de rock, mas tocar sertanejo não dá mais dinheiro? Por que rosa se amarelo? Por que 6S se 7 Plus? Por que só América Latina e não todo continente europeu? Por que só um ao invés de mil?

E entre a cruz e o sim, a espada e o não, a gente vai se sentindo no direito. De mobilizar mundos, fundos e acasos em busca do que a gente quer, pra, antes mesmo de dobrar a esquina, já não querer tanto assim. Descartar-se nunca foi tão fácil. Um mundo possível a cada compra e a gente querendo viver em todos. Enfia mais que cabe, vai por mim. Profundidade? Há tempos só habitamos o raso. E aí eu te pergunto: quantas estaca-zeros pra se chegar no instante decisivo, aquele que vai mudar a nossa vida pra sempre? Aquele dia em que toda escolha será satisfatória e nenhuma rejeição parecerá tão interessante assim. Esse momento chega antes de a gente se deixar levar ou a busca é eterna? Eu quero meu verde mais verde sem olhar pro verde do vizinho, mas eu tenho lá minhas dúvidas.

De que lado ficar: é preciso mesmo escolher? Já não acredito com tanta força e sinto menos ainda. Mas quão forte tem que ser o sentimento pra me mover do chão, pra me tirar daqui? Começo a achar bonitinha a cor desse muro, não quero ajuda pra descer. Enquanto não decido o que quero da vida, vou fingindo pro mundo que amo minha rotina e sigo cada vez mais certo de que o mal da nossa geração é esse excesso de possibilidades.

Quando

TD - Quando
Foto: Petterson Farias

Sabe quando você, no trânsito, rouba a minha mão e pousa de leve na sua perna, e eu te olho sorrindo em silêncio? Ou mesmo quando você repete suas velhas histórias, do mesmo jeitinho, sem tirar nem pôr uma vírgula, e eu manifesto surpresa pra não te desapontar? E quando você me liga de madrugada morrendo de saudade, mesmo eu sabendo que você queria estar dormindo desde às dez? Em todas essas vezes, eu te vejo dizer sem palavras do amor que atravessa teu peito aí e que, não coincidentemente, marca o meu aqui também.

Quando as suas frases de efeito saem em inglês e eu morro de rir; quando você briga com alguém e é pra mim que liga chorando arrependido e eu não sossego até te fazer melhor; quando você desce a ladeira e me manda vídeo do mar com a nossa música ao fundo e eu me sinto como se estivesse do seu lado, sabe? Quando estamos juntos e acordamos na mesma hora sem combinar, antes do despertador tocar, só pra namorar um pouquinho mais. Em todas essas situações, eu me surpreendo sussurrando baixinho gratidão pelas coisas que eu só experimentei com você.

Quando seus olhos me comem despretensiosamente e eu finjo não vê-los. Quando você me enumera todas as suas incertezas e eu destruo uma a uma, mas sobretudo, quando é você que me faz acreditar. Quando você me liga com a voz rouca de sono só pra dizer que me ama e eu te respondo ainda com os olhos fechados que te amo mais. Quando você declara seu ciúme com jeitinho e eu, ao invés de ficar com raiva, tenho vontade de te esmagar com tanto afeto. Nesses instantes, eu te abraço com todas as forças que um sentimento bom pode ter.

Quando você dá aquela risada engraçada e demorada por causa de algo que eu falei ou quando você me pede desculpas, eu me encho de orgulho pelo homem que você é. Quando você me manda um beijo escondido, achando que ninguém vai notar e a gente cai na gargalhada, morrendo de vergonha, porque, sim, alguém notou, tudo em mim sorri. Quando eu chamo você de amor na frente de estranhos e você se apavora, fazendo aquela cara de horror, eu até me esqueço do quão difícil é amar como a gente ama, porque com você tudo parece mais fácil.

Quando eu estou longe e você dorme com a minha camisa sem eu saber e eu acordo querendo ainda mais o seu abraço. Quando você, sem pudor, deixa seu cheiro em mim. Quando, involuntariamente, seus olhos fecham e o seu sorriso fica maior que o mundo. Quando você me sugere todos os sonhos e num abraço, me lembra de que eu não poderia ter alguém melhor do meu lado. Ou mesmo quando você me troca pela televisão e eu ronco deitado no seu peito. Em todos esses momentos, eu me sinto na obrigação de te devolver as coisas boas que espalhas sem dó nem piedade pela minha vida.

Quando você me leva pra ver o mar e, mesmo com frio, mergulha comigo; quando eu saio do quarto, desço as escadas, seguindo o rastro do seu assobio que ocupa a casa inteira, e uma alegria sem fim me invade; quando eu te escrevo num dia qualquer e você diz que ama as minhas palavras; ou quando você faz questão de fazer o nosso café da manhã e eu te assisto cozinhar; quando a gente se encontra no aeroporto e dá aquele abraço demorado, provando ao mundo, do nosso jeito, que todo amor é bom, sim, não importa o gênero; e até quando a gente ri lembrando que um dos nossos temas de namoro é um sertanejo; tudo em mim inspira leveza, paixão e certeza.

Quando você me agradece baixinho no ouvido por coisas que eu faria de novo com o maior prazer. Quando seus amigos me reiteram em segredo o amor que você me declara. Quando você pressiona a língua contra o céu da boca, como deve estar fazendo agora pra não chorar, e chora mesmo assim. Quando eu me dou conta de que tudo isso está só no começo, parece que meu coração, depois de tanto agonizar, por sua causa sorri sem freio e volta a viver sem medo. Quando você, diariamente, teima em estar na minha vida, mesmo a quilômetros de distância, eu te juro que eu me sinto o cara mais feliz do mundo.

Vou contar

Vou Contar
Foto: Natália Viana

Ando tão distraído, amarrado em teus sentidos, que eu até me esqueço de escrever. Tua rotina tem preenchido meus dias e eu já nem me importo de acordar tão cedo, só pra ser o teu primeiro ‘bom dia!’, porque à noite, eu sei, se eu cochilar no sofá, o celular vai me acordar com o barulhinho que, na minha cabeça, já pronuncia teu nome, és tu me chamando pra deitar.

Tem sido assim desde o nosso primeiro encontro. Os acasos me tomam pela mão, me levam pra mais perto, te trazem pra dentro e me fazem tão bem, enquanto os meus pensamentos já se embalam no ritmo gostoso do teu sotaque. O meu coração grita gratidão tão alto que chego a achar que todo mundo já ouviu, não preciso repetir nem reproduzir no papel.

É que o encanto meio bobo com que você observa as minhas ruas, canta no meu ouvido, me come com os olhos e fala de amor, tudo isso me causa certo contentamento que de tão novo, eu nem sei dizer. Mas eu quero dizer! Eu preciso escrever e contar ao mundo que, nesses dias, tua vida tem feito a minha muito mais feliz.

SSA

ssa
Foto: Petterson Farias

Eu te encontro depois das nove, na porta de casa, numa dessas terças de carnaval. No beijo inédito, mas nada tímido, no cheiro meu que agora é teu. Entre olhos azuis, encartes rosas e rios vermelhos, te encontro ainda numas distâncias tão próximas que nem sei. E nos sotaques, sons e poesias que eu já admirava há tempos mesmo sem saber que tua vida também delas se constituía. Eu te encontro no que é agora, nas libidos que são pra já, nas paixões e impulsos que nasceram pra não perder tempo. Não nos demos o trabalho de ser pra depois nem carregamos o peso do amanhã. Eu estou contigo aí, você mora comigo aqui. E isso é tudo!

Pretérito Imperfeito

Pretérito Imperfeito
Foto: Petterson Farias

Eu queria ter ficado aqui, entre aqueles braços tortuosos que me desviavam do caminho e me apontavam o infinito; entre aqueles traços tatuados que faziam meus dedos se perderem, guias do meu sorriso, laços feitos para me prender.

Eu queria ter morado naquele nosso encaixe demorado, porque se tuas mãos eram pesadas demais, o ar não me fazia falta; queria ter me perdido naqueles músculos e minutos que me apertavam, porque no teu colo, eu mal notava o tempo, eu só pedia mais.

Eu queria ter deixado tudo lá fora, sem ver a realidade tentando invadir, o mundo querendo entrar, porque tudo aqui era só nosso, tudo em ti me bastava. Eu queria ter ficado aqui, alheio aos estragos do que viria depois, mas você não ficou!

O que é a vida?

Foto: Fabíola Lourenço

Talvez falte coragem pra dar o braço a torcer e, por fim, entender que a vida é isso: instantes em nada compromissados com o futuro; impulsos e pessoas para se viver agora, e, em seguida, deixar correrem soltos por aí, desprendendo-se das intenções e expectativas mortas antes mesmo de vir à luz.

Movimento incessante do mundo, ora tudo, ora pouco demais. A certeza de que nada nos pertence, nem nós mesmos. E sendo toda gente bichos livres, o que nos resta é sair por aí florescendo o que há de bom no outro, mas certo de que viver pressupõe ir e vir, pegar e largar, reunir e separar, e, vez ou outra, ir pra nunca mais voltar. Somos ocasiões, desprendimentos, distanciamentos, chegadas e partidas. Não passamos de trocas e sentimentos que o tempo sempre trata de modificar, amortizar, acentuar e matar para nos fazer, cotidianamente, sobreviver.

Talvez só nos falte leveza e sensibilidade suficientes para compreender que a vida boa é feita de tudo aquilo que nasceu pra não durar!