Modo Avião

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Foto: Diego Dalmaso

De longe, tudo parece impossível
mas o que é mesmo a distância
se o que eu tenho aqui sinto tão dentro?

De perto, a coisa muda de figura
ainda mais quando a tua boca diz pra mim
um riso que quase ninguém vê

De cima, casinhas tão pequenas
geografias finitas, cidades mínimas
enquanto lá embaixo, aquele esforço enorme pra te alcançar
uma vida contada em milhas, trajetos absurdos,
quereres e renúncias brincando de ser feliz.

Vida é perspectiva. E ângulo é tudo!
Eu agora voo, pressurizado entre olhares estranhos e 30 mil pés.
Poltronas retas, cintos atados, nossa playlist em modo avião.
Vou ao teu encontro, longe de tudo, perto de nós, sendo só teu.
Quer perspectiva mais linda?

 

Quando

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Foto: Petterson Farias

Sabe quando você, no trânsito, rouba a minha mão e pousa de leve na sua perna, e eu te olho sorrindo em silêncio? Ou mesmo quando você repete suas velhas histórias, do mesmo jeitinho, sem tirar nem pôr uma vírgula, e eu manifesto surpresa pra não te desapontar? E quando você me liga de madrugada morrendo de saudade, mesmo eu sabendo que você queria estar dormindo desde às dez? Em todas essas vezes, eu te vejo dizer sem palavras do amor que atravessa teu peito aí e que, não coincidentemente, marca o meu aqui também.

Quando as suas frases de efeito saem em inglês e eu morro de rir; quando você briga com alguém e é pra mim que liga chorando arrependido e eu não sossego até te fazer melhor; quando você desce a ladeira e me manda vídeo do mar com a nossa música ao fundo e eu me sinto como se estivesse do seu lado, sabe? Quando estamos juntos e acordamos na mesma hora sem combinar, antes do despertador tocar, só pra namorar um pouquinho mais. Em todas essas situações, eu me surpreendo sussurrando baixinho gratidão pelas coisas que eu só experimentei com você.

Quando seus olhos me comem despretensiosamente e eu finjo não vê-los. Quando você me enumera todas as suas incertezas e eu destruo uma a uma, mas sobretudo, quando é você que me faz acreditar. Quando você me liga com a voz rouca de sono só pra dizer que me ama e eu te respondo ainda com os olhos fechados que te amo mais. Quando você declara seu ciúme com jeitinho e eu, ao invés de ficar com raiva, tenho vontade de te esmagar com tanto afeto. Nesses instantes, eu te abraço com todas as forças que um sentimento bom pode ter.

Quando você dá aquela risada engraçada e demorada por causa de algo que eu falei ou quando você me pede desculpas, eu me encho de orgulho pelo homem que você é. Quando você me manda um beijo escondido, achando que ninguém vai notar e a gente cai na gargalhada, morrendo de vergonha, porque, sim, alguém notou, tudo em mim sorri. Quando eu chamo você de amor na frente de estranhos e você se apavora, fazendo aquela cara de horror, eu até me esqueço do quão difícil é amar como a gente ama, porque com você tudo parece mais fácil.

Quando eu estou longe e você dorme com a minha camisa sem eu saber e eu acordo querendo ainda mais o seu abraço. Quando você, sem pudor, deixa seu cheiro em mim. Quando, involuntariamente, seus olhos fecham e o seu sorriso fica maior que o mundo. Quando você me sugere todos os sonhos e num abraço, me lembra de que eu não poderia ter alguém melhor do meu lado. Ou mesmo quando você me troca pela televisão e eu ronco deitado no seu peito. Em todos esses momentos, eu me sinto na obrigação de te devolver as coisas boas que espalhas sem dó nem piedade pela minha vida.

Quando você me leva pra ver o mar e, mesmo com frio, mergulha comigo; quando eu saio do quarto, desço as escadas, seguindo o rastro do seu assobio que ocupa a casa inteira, e uma alegria sem fim me invade; quando eu te escrevo num dia qualquer e você diz que ama as minhas palavras; ou quando você faz questão de fazer o nosso café da manhã e eu te assisto cozinhar; quando a gente se encontra no aeroporto e dá aquele abraço demorado, provando ao mundo, do nosso jeito, que todo amor é bom, sim, não importa o gênero; e até quando a gente ri lembrando que um dos nossos temas de namoro é um sertanejo; tudo em mim inspira leveza, paixão e certeza.

Quando você me agradece baixinho no ouvido por coisas que eu faria de novo com o maior prazer. Quando seus amigos me reiteram em segredo o amor que você me declara. Quando você pressiona a língua contra o céu da boca, como deve estar fazendo agora pra não chorar, e chora mesmo assim. Quando eu me dou conta de que tudo isso está só no começo, parece que meu coração, depois de tanto agonizar, por sua causa sorri sem freio e volta a viver sem medo. Quando você, diariamente, teima em estar na minha vida, mesmo a quilômetros de distância, eu te juro que eu me sinto o cara mais feliz do mundo.

Por Gentileza

Por Gentileza
 Foto: Fabíola Lourenço

Menos ‘vem me ver’ e mais ‘vou aí te ver’. Menos corpos separados, amores à distância e hora para ir embora. Mais carne no dente, uma pele na outra, libido comendo a gente.

Mais riso, poesia e você no meu dia a dia. Menos lamento e aquele tormento do arrependimento. Mais domingos para lembrar. Menos segundas para esquecer. Mais dias para escrever. Mais noites para te ter.

Confissão

 

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‘Compreendeu então que as metáforas são perigosas.
Não se brinca com as metáforas.
O amor pode nascer de uma simples metáfora’.
A Insustentável Leveza do Ser

 

As minhas vírgulas, amigo leitor, sou eu dizendo
em que partes da poesia você deve respirar.

Meus pontos te indicam quando deve seguir sozinho
e minhas metáforas dão indícios da tua compreensão.

Os meus segredos encontram sinônimos na tua vida
e as rimas que enfeitam meus versos te fazem dançar.

Meus textos são para dizer que,
em todas as vezes que seu coração sentiu,
você nunca esteve sozinho.

 

Travessias

Travessias
Foto: Petterson Farias

Nunca fui de prolongar namoros conturbados só pelo prazer de ver em que fim daria, nem tampouco de me prender em histórias monótonas só pra vê-las se transformarem, pouco a pouco, em filmes de terror. Nunca quis ficar mais do que o combinado e acho que algo aqui dentro, involuntariamente, sempre me avisou o momento exato de fechar a conta, passar a régua e dizer adeus.

Todas as vezes em que permaneci, foi pela nítida sensação de que ainda seria bom. E, pelo menos nisso, nunca falhei! Não passei da hora, mas também não abortei. Só continuei até onde soube ser suficiente e parei antes do sorriso se fechar, o coração se ferir, a amizade acabar. De forma assim delicada, foram sempre as ocasiões que me chamaram de cantinho pra me dizer quando partir.

E embora o outro quisesse, não ocupei mais dias seus do que deveria, como quem fica mais um bocadinho só à espera do tempo fechar e a casa cair. E eu que sempre condenei o autoelogio, achei importante te dizer tudo isso, pra que tu entendesses, de uma vez por todas, de onde vem toda essa minha certeza de não mais seguir.

É que eu sempre cuidei para não me demorar onde não preencho mais, por acreditar que é possível, sim, passar pelo outro sem fazer doer e, pelo menor tempo que seja, atravessar a vida alheia com um só intuito: ser e fazer feliz.

 

Interurbano

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Foto: Fabíola Lourenço

– Tá achando ruim por que mesmo se entre nós já não há mais nada?
– porque sim, ora…
– penso que se incomodar é indício;
– e o que você quer dizer com isso?
– que alguma coisa ficou mal resolvida
– mal resolv…
– você ainda sente algo?
– CLARO, CARALHO!
– também sinto.
– eu sempre soube.
– e por que tão separados?
– cabeça confusa.
– mas penso que dois serão sempre mais fortes que um.
– posso chorar?
– não sem antes me responder…
– eu digo sim!
– assunto encerrado?
– sim.
– amor recomeçado?
– também.

Chegou!

Chegou!
Foto: Renan Viana @encolhiaspessoas

Foi por uma brecha de segredos que nosso amor vazou. E eu não tinha o que fazer, nunca foi a minha intenção, mas foi assim que o amor entrou. Não vou negar que, mesmo sem te conhecer, já roubava teus sorrisos com o canto dos olhos e desejos do meu peito. Há tempos, é claro, eu já te via ali pelas esquinas de outros braços. E enquanto os meus permaneciam vazios, contigo eles sonhavam.

Lembro, como se não me restasse saída, do dia em que tu te aproximaste. Olhares tímidos, charme entre cabelos e receios – na medida! – e a voz mansa ensaiada por todas aquelas tuas manhas feitas para confundir até os mais espertos. Chegou pertinho, com aquele jeito de quem nunca quis nada e ocupou o imenso lugar vazio que começava na cadeira ao lado e terminava aqui dentro, no meu coração.

Já na primeira resposta, tu deixaste à mostra o que quase ninguém sabia. Uma a uma, disse todas as palavras que eu esperava ouvir, espaçadas só pelo ritmo das minhas vontades e dos teus desejos agarrados. E eu, de cara, reconheci em ti os traços que eu ainda usaria para desenhar os dias que chegavam a partir dali. Estávamos condenados a sermos cúmplices da mesma história. Enredo feliz, enfim.

Àquela altura, eu te dei companhia e te emprestei algumas das minhas frases, que ficavam muito mais bonitas quando pontuadas pelas tuas risadas, sabendo que me devolverias a gentileza em forma de cartas espalhadas nos próximos meses e declarações de confiança que durariam até aqui. Nunca te disse, mas, naquele dia, ficou gravado em mim teu gesto afetuoso escondido no nosso primeiro abraço. Foi como receber tuas melhores juras sem escutar uma palavra sequer.

Também ficaram manchadas no meu corpo as digitais do teu fogo e o apego dos teus beijos. E desde aquelas tardes que sobraram lá atrás, eu já não sou o mesmo. Não dou mais satisfação às minhas vertigens sentimentais. Nem empilho expectativas por intensidade, tamanho e prazo de validade. A tua presença ocupou os ponteiros do meu relógio e, por tua causa, todas as certezas que se atrasaram no caminho não desistiram de chegar. Mas outra vez me pego sem ter o que fazer e a culpa nem me assombra. Agora eu só tampo a brecha, guardo o segredo e te pego pelos braços. O amor entrou.

 

A Bordo

 
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Mas apesar de você, ainda há quem prefira o submerso,
a alma molhada, o coração inundado e toda aquela
inquietação que sugere soltar o corpo,
perdendo de vista as margens só para chegar mais fundo.

Apesar dos teus medos, há quem traga o amor nas mãos,
a vida desancorada e os pés sem chão,
convencido de que estar com alguém
ainda é a melhor maneira de remar nessa maré,
sincronizando o balanço e apostando
na imensidão que é ser mais que um.

 

(A Amanda Pinho pediu e esse texto é a resposta para Vazante) =D

 

Mútuos

 

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‘- Eu vou embora.
– Lamento muito.
– É irrelevante. Lamenta o quê?
– Tudo.
– Por que não me contou antes?
– Covardia.
– É por ela ter sucesso?
– Não. Porque ela não precisa de mim’.

Closer – Perto Demais

 

Dia desses, andei mudando de ideia sobre um bando de coisas, uma delas é o amor. Sim, o amor. E se lhe parecer piegas demais esse tema, peço que pare. Juro, não vale a pena continuar. Mas se, assim como eu, você também pensa algo a respeito dele, por favor, fique.

Quanto ao que eu ia dizendo, seria leviano da minha parte fingir que tudo foi mera observação, estudo apurado, com olhar curioso de quem assiste de fora. Porque não foi, sabe como é… Empirismo é coisa que não se controla. Quando a gente para pra pensar, já viveu. Pois é, e eu vivi. Quer dizer, não vivi. Enfim, espero que entenda.

Tempos atrás, vivi às avessas algumas modalidades de sentimentos desmedidos, paixões bobas e carências agoniadas. Por meses a fio, procurei emergir de algum vazio, a partir de tentativas e desacertos que só me fizeram afundar ainda mais. É, e chamei isso de amor. Era parecido, acredite! Entre distorções e pouco foco, achei que cabia definir tudo assim.

E meus planos só não eram mais equivocados que a visão deturpada. A ligação repentina, o livro emprestado, a viagem no meio do ano e mais um futuro bom à sua escolha. A tudo isso eu me prestava, mas ok, quem nunca, não é? E se você respondeu nunca, eu te digo como a coisa funcionava.

Ah, e antes que eu me esqueça, quanto ao julgamento dessas minhas atitudes, se elas soam mais como ridículas, penosas ou abomináveis, eu deixo por conta de vocês, que, óbvio, ou já estiveram no meu lugar ou já ouviram uma história parecida. Recado dado, voltemos!

Depois das primeiras horas, quando a luz tímida ainda ensaiava as primeiras projeções e os gestos ainda se atropelavam na escuridão, era como se, de algum modo, eu já me sentisse no direito de depositar em uma nova possibilidade a validação de qualquer felicidade que eu pudesse sentir. Parecia-me impossível ser assim tão só. Achava que somente a partir de dois pedaços era que se constituía qualquer realização por inteiro.

Veja bem, não era um oferecendo algo bom para a história dos dois. Era eu esperando a totalidade do outro, meio que acomodado com a sensação de não ter algo a dar, mas com muita necessidade de receber em troca. E eu não queria pura e simplesmente, era muito mais, digamos que se tratasse de uma exigência travestida de amor bom, sem cobranças, sem esperas; de alguém feito de expectativas, ansiedades e inseguranças, querendo sempre provar o contrário; digamos que se tratasse de uma grande mentira.

Em contrapartida, quanto mais pensava assim, menos eu me preenchia. E por muito tempo, ainda faria da necessidade de ter alguém, resolução única para viver feliz, sem saber que a verdade era outra completamente diferente. Mas antes que alguém pense no trágico, adianto que não foi preciso chegar ao extremo para, como diria a música, mudar algumas certezas de lugar. Estive quase lá, mas parei antes do fim.

Não cometi loucuras nem fugi de casa. Não me perdi nos vícios nem morri de amor. Mas senti como se doer fosse ofício. Desejei como se disso dependesse minha própria vida. E nos intervalos, entre uma vontade e outra, eu me condenei. Até que passou. Até que concluí.

E para que eu não me estenda ainda mais, digo logo: hoje, idealizo o amor como partes que se acompanham. Vá lá que se precisem, mas que, sobretudo, se independam. Mesmo que caminhem para uma única direção, que continuem sendo dois. Que não necessitem, mas que o empenho consista em se complementar. Não sobrevive qualquer relação cujo par se desnivele, em que um esteja por cima e o outro por baixo, por fora, pelos cantos, sofrendo pelas beiradas, morrendo pelas tabelas. Os tempos de escravidão já não se foram? Pois é, então acredite na abolição. Por que ser dependência, prisão e sufoco se você pode ser a certeza na vida de alguém?

 

Insira um ‘eu te amo’ aqui

Insira um eu te amo
Foto: Fabíola Lourenço

Os românticos assumidos que me perdoem,
mas os introspectivos me comovem mais.
Não que as declarações fáceis desapontem,
mas é que o desabafo inesperado me agrada mais.

Aquele sentimento calado, reverberado no silêncio,
que quando vem à tona, explode meio sem modos,
atropelado e desajeitado, exalando embaraço e timidez.

Nada contra os adeptos da franqueza,
das confissões provocadas sem o menor esforço,
mas que delícia arrancar as relutantes palavras,
que num instante te dizem tanto daquele amor
que você sempre soube ser tão grande.