Pretérito Imperfeito

Pretérito Imperfeito
Foto: Petterson Farias

Eu queria ter ficado aqui, entre aqueles braços tortuosos que me desviavam do caminho e me apontavam o infinito; entre aqueles traços tatuados que faziam meus dedos se perderem, guias do meu sorriso, laços feitos para me prender.

Eu queria ter morado naquele nosso encaixe demorado, porque se tuas mãos eram pesadas demais, o ar não me fazia falta; queria ter me perdido naqueles músculos e minutos que me apertavam, porque no teu colo, eu mal notava o tempo, eu só pedia mais.

Eu queria ter deixado tudo lá fora, sem ver a realidade tentando invadir, o mundo querendo entrar, porque tudo aqui era só nosso, tudo em ti me bastava. Eu queria ter ficado aqui, alheio aos estragos do que viria depois, mas você não ficou!

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O que é a vida?

Foto: Fabíola Lourenço

Talvez falte coragem pra dar o braço a torcer e, por fim, entender que a vida é isso: instantes em nada compromissados com o futuro; impulsos e pessoas para se viver agora, e, em seguida, deixar correrem soltos por aí, desprendendo-se das intenções e expectativas mortas antes mesmo de vir à luz.

Movimento incessante do mundo, ora tudo, ora pouco demais. A certeza de que nada nos pertence, nem nós mesmos. E sendo toda gente bichos livres, o que nos resta é sair por aí florescendo o que há de bom no outro, mas certo de que viver pressupõe ir e vir, pegar e largar, reunir e separar, e, vez ou outra, ir pra nunca mais voltar. Somos ocasiões, desprendimentos, distanciamentos, chegadas e partidas. Não passamos de trocas e sentimentos que o tempo sempre trata de modificar, amortizar, acentuar e matar para nos fazer, cotidianamente, sobreviver.

Talvez só nos falte leveza e sensibilidade suficientes para compreender que a vida boa é feita de tudo aquilo que nasceu pra não durar!

Conversa Franca

Conversa Franca
Foto: Victoria Sales

Passo a vida tentando convencer o mundo de que meu coração é livre e o choro não existe. Dou murro em ponta de faca e cutuco um bando de sentimentos baratos, encorajado pela sensação de ser feito de carne, osso e liberdade! Brigo com o espelho, repetindo desprendimentos, certo de que depois de um, sempre vem outro(s). Porque, óbvio, o coração sabe bem que também há amores feitos para não durar!

Transito com certa leveza e cinismo entre paixões amarradas ao pé da cama, dedos tesos, corpos unidos e outros desejos suados! Eu te amo pra cá! Agora passa a língua pra lá! Mete mais que tá gostoso! Ai! Ui, gozei! Foi bom pra mim! Te deixo em casa? Até mais, um beijo, tchau!

Entro de peito aberto em outras vidas, viro do avesso e remexo tudo que quero, ciente de que o outro leu o manual e aceitou os termos de uso. Claro, ninguém aqui é criança, somos maduros o suficiente pra gerir qualquer sentimento que atente contra a moral e os bons costumes (do desapego), não é mesmo? Como pensei!

Até que por um descuido e uma porta aberta, o amor me desconstrói! E da pior maneira, transforma em castigo o que sempre me libertou. Chega dando vida às amarras antigas e aos piores sintomas que um coração tresloucado pode ter! Aí me dou conta de que, durante todo o tempo em que fingi independência e sobriedade, o outro pulou a cerca, para escancarar minhas janelas e me partir ao meio. E eu não tenho mais para aonde correr! O que me resta é sangrar mais uma vez a dor de estar preso a quem nunca foi meu por completo!

Cacos

cacos
Foto: Fabíola Lourenço

Celebro o acaso que me fez te encontrar entre estas linhas e, em meio a tantos textos, o teu rosto até então disforme. Lembro-me dos amores que, assim como o teu, por aqui já passaram, aqui já moraram e que também se apressaram em ir, mas não sem antes deixar qualquer coisa de eterno em mim. Hoje, admito, não passo de um amontoado de traços indeléveis de todos eles!

Ando por estas letras que aqui sobraram, vestígios de fúria, impulsos e outros castigos. São as mesmas que um dia escreveram a minha vida, iludidas por histórias que se perderam antes mesmo do ponto final. Apesar de me fazerem inteiramente culpa, são as únicas que ainda me apontam o caminho certo pra seguir aquilo que insisto em chamar de futuro. Só por isso, eu as mantenho aqui.

Passeio entre estes cacos e decido, enfim, jogá-los fora, vê-los partir, não sem antes confessar que neles, sempre houve mais dos que se foram, e de todos vocês, que permanecem aqui, do que de mim!

 

Previsíveis

previsiveis
Foto: Petterson Farias

Vais então perceber que tudo foi desespero e que aquilo que um dia chamaste de teu, nunca nem te pertenceu. Vais cair em si e sair por aí dando conta do que deixaste pra trás, só pra favorecer um sentimento que no fundo não passou de vaidade.

Vais te arrepender baixinho, com o coração amargo, esmurrando por dentro todas as cicatrizes que insistirão em lembrar o que te feriu. Vais olhar pro lado, com medo de ser notado e se escorar pelos cantos, tratando tuas perdas como sintomas de uma doença letal.

E não vais pedir ajuda, porque teu orgulho vai persistir naquela teimosia própria dos que sofrem só. Mas logo vais arranjar um culpado, alguém que leve tua culpa pra bem longe e te amenize a vergonha por acreditar em algo tão vil. E no final ainda vais dizer aos quatro cantos que eu não te avisei.

Interurbano

interurbano
Foto: Fabíola Lourenço

– Tá achando ruim por que mesmo se entre nós já não há mais nada?
– porque sim, ora…
– penso que se incomodar é indício;
– e o que você quer dizer com isso?
– que alguma coisa ficou mal resolvida
– mal resolv…
– você ainda sente algo?
– CLARO, CARALHO!
– também sinto.
– eu sempre soube.
– e por que tão separados?
– cabeça confusa.
– mas penso que dois serão sempre mais fortes que um.
– posso chorar?
– não sem antes me responder…
– eu digo sim!
– assunto encerrado?
– sim.
– amor recomeçado?
– também.

Minha reza

minha-reza
Foto: Petterson Farias

Livrai-me dessa gente alheia, assim muito autossuficiente, bem como dos indiferentes, esses que quase sempre têm preguiça de sentir; dos que por si só não se movimentam; daqueles que me partem ao meio, mas em troca não me oferecem nada.

Livrai-me dessa gente que sai de casa sem seus “bom dia”, vírgulas, vocativos e plurais; dos lentos em caixas eletrônicos; daqueles críticos ao extremo; dos mal educados no trânsito; dos que me pedem emprestado o que nunca vão devolver; sobretudo, dos relacionamentos e sujeitos rasos, que fazem questão de me puxar pra superfície, mesmo quando todas as possibilidades e vontades me querem mergulhar.

Sim, dos amores pela metade também; das religiões intolerantes, pelo amor de Deus; das poltronas apertadas de avião; das comidas sem sal; da insônia constante; das conversas longas pelo celular; do receio de ouvir minha própria voz; das canções que me desnudam (mentira, dessas não); dos trabalhos que só rendem dinheiro e pouco prazer; de ter que dar satisfação ou a mesma resposta mais de uma vez, por favor!

Livrai-me das roupas e sentimentos que não me cabem mais; dessas relações que me roubam o silêncio; desse amontoado de ideias inertes que nunca ganham vida; assim como de todas as minhas abstinências que fazem tudo isso ser maior do que de fato é, amém!