Age!

Foto: Fabíola Lourenço
Foto: Fabíola Lourenço

Faz assim, aciona teus instintos, agride teus pavores, pega o telefone e disca o número que sempre soubeste de cor, diz que foi engano, não a ligação, mas todo esse tempo que vocês perderam, sofrendo calados e amando tão separados. Distorce a realidade, torce o braço, diz à distância que ela é menor do que imagina e quando a música te fizer lembrar, declara isso. Entorpece teus sonhos com as atitudes que no fundo tu sempre quiseste tomar. Proíbe o comodismo de entrar e fala, meu querido, porque sentir em silêncio é letal.

Compra as passagens, reserva o hotel, foge pra bem longe, entra sem bater e só sai de lá quando não mais quiser, mesmo que todo mundo esteja olhando. Dedica o verso, escreve o rosto dele num pedaço de papel, mas apaga os defeitos, colore, pelo menos uma vez, somente o que ele tem de bom. Vai na casa, escancara a porta, pula a janela e culpa a saudade, quando te flagrarem numa dessas situações constrangedoras. Planeja um passeio pro sábado, convida pro cinema no domingo e na quarta-feira surpreende a rotina massacrante com as palavras que só tu, na hora, vais saber escolher.

Desembrulha os sentimentos, tira o amor de trás das cortinas e faz pulsar todos esses instintos tortos que cada um de nós carregamos dentro de si, sobretudo quando amamos. Faz tudo isso e um pouco mais. Mas faz mesmo, que, uma hora, o teu orgulho desiste!

Mãe

MãeNão foi uma nem duas vezes que ouvi minha mãe reclamar o fato de eu nunca ter escrito algo sobre ela e o nosso amor por aí. A verdade é que desde que descobri nos textos a melhor forma de expressar meus grandes amores, paixões e relacionamentos, sobre quase tudo eu já escrevi, mas pela minha escrita, o nosso amor nunca passou. Já culpei meu signo, minha criação e até transferi à personalidade e ao medo os motivos por tamanha dívida com quem sempre significou infinito amor pra mim. E se você me lê com certa frequência, vai se lembrar das inúmeras vezes em que já confessei aqui a minha falta de tato com as palavras ditas e os sentimentos falados. Mas confesso, apesar do esforço, nunca soube dizer. Nunca fiz uma declaração de amor pra minha mãe. Juro, não foi por falta de vontade. O coração já ensaiou se rasgar em várias ocasiões e sobre as vezes em que quis verbalizar e engasguei, eu já nem conto mais nos dedos. Temo, inclusive, que esse texto não se conclua, assim como outros tantos. De qualquer forma, vão nele alguns 20 e poucos anos de atraso e muito do que eu nunca soube dizer.

Lembro que, há uma década, quis deixar o quarto ao lado do dela pra estudar na capital, morar sozinho e brincar de gente grande no ápice dos meus ainda não completados 18 anos. Ela não hesitou em acatar minha decisão, mas sei bem como deixei aqueles olhos, aquele colo e todos aqueles cuidados que sempre foram meus. E de todas as dificuldades que enfrentei no começo, deixá-la só foi a mais doída. Na mesma época, meu irmão do meio foi morar com meu pai e sozinha ela ficou com a casa grande, dois quartos vazios e uma mesa de jantar só pra um. Eu sobrevivia em Belém num quarto de fundos, com poucos reais pra pagar cursinho, transporte, comida e pro que mais desse. Nunca dava! E mesmo assim, minha aflição maior continuava sendo minha mãe lá. Não sei se pela aparência de pouca idade ou pela sua ingenuidade, sempre carreguei comigo esse dever de cuidá-la, de ser filho, mas também ser pai, zelando pra que nada de ruim acontecesse a ela. E como a distância dificultou o processo. Foi terrível! Mas acho que soubemos nos virar.

Meses depois, eu passava na universidade e escolhia ficar e minha mãe ao saber da minha vontade, decidia que sonho meu, seria sonho dela também. Largou tudo o que tinha e deixando pra trás os familiares, as raízes, a casa e a vida de sempre, veio me acompanhar. Os anos se foram e aquelas dificuldades antigas também, mas é ao meu lado que ela ainda segue caminhando. Hoje, quando, volta e meia, tento entender a dimensão de atitudes como aquela de outrora, que acabaram por mudar tudo e significar tanto, no alto dos meus egoísmos compreendo cada vez menos. E se não entendo, tento retribuir, mesmo que em meio aos tropeços. Sempre enxerguei na gratidão um bom pretexto pra brincar de amar.

Entretanto, se aqui não cabe falar de todas as outras situações em que minha mãe foi a melhor mãe, cabe dizer que em todas as vezes em que nos calamos e deixamos a oportunidade de falar do amor escorrer pelos abraços, olhares e almoços em silêncio, eu o vi se aproximar por outros ângulos, manifestar-se em outras línguas e fazer-se forte como nenhum outro. Porque não há dúvidas. É ela, sim, quem mais vai entender minha mudez, meu individualismo crônico, meu amor não verbal, meu egoísmo e minha cama por arrumar. É quem vai me lembrar de onde vim, porque me fiz assim e porque eu nunca vou conseguir rir baixo. É quem vai me amar nos gestos, na roupa passada e no café-da-manhã que ela faz questão de deixar pronto antes de eu acordar.

Acho que nunca vou saber de onde é que vem tanto zelo com o quarto que não é seu; o carinho com os amigos que não são seus; a preocupação com o stress do trabalho que também não é seu. Mas não é porque sigo sem entender que deixaria de um dia te dizer o quanto sinto e o quanto, mesmo calado, amo tão forte. Obrigado pelos genes da alegria, pelo jeito leve de viver que escorre pelas veias e que, sei bem, também veio daí. Sua felicidade me diz respeito, suas pequenas realizações diárias, como aquelas de ter a comida elogiada, são da minha alçada e no que depender de mim, seu sorriso também vai continuar sendo culpa minha. Se pouco aparento, então me deixe dizer aqui: quando quis ser um homem do bem e alguém melhor foi por achar que sou mínimo diante de tanto amor, cuidado e confiança que a senhora sempre depositou em mim. Talvez as palavras permaneçam engasgadas por mais um bom tempo e os sentimentos ainda vaguem, intangíveis que só eles, pelos corredores da casa e dos dias, mas não esqueça nunca: meu amor é todo seu!

Feliz dia. ❤

 

 

A primeira carta

 

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‘arrumei a casa, preparei o coração
esperando sua chegada tão sonhada
vesti o melhor sorriso, espalhei pelo chão
o perfume da rosa mais enfeitada pra te
colorir e te cobrir de bem querer’.

Saulo

 

Eu seria injusto se não falasse de ti para os meus versos, se eu te trancasse pelo lado de fora, impedindo qualquer conversa entre vocês. Sei que não me perdoariam, caso isso acontecesse. Não tu, eles.

Estiveram aqui por tanto tempo, mesmo depois de inúmeras histórias equivocadas, que agora me sinto no dever de dar uma trégua e algumas outras linhas para que preencham sorrindo, contentes pelas cores novas que, mesmo sem querer, ao meu mundo tu deste.

E o motivo, se finges não saber, eu te digo: é que esses versos, que tantos casos interrompidos já testemunharam,  só agora me veem de sorriso e coração largos, perambulando por aí à procura do melhor modo de dizer que meus últimos dias têm sido como um feliz domingo de carnaval.

 

Por Fora

 

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‘Dalgum modo contar histórias repetidas vezes
parece tornar elas mais reais do que devem ter sido’.

Charles Bukowski

 

Eu sempre vou desconfiar, e muito, dessa gente que só é feliz jogando na cara dos outros. Ser feliz assim me dá a impressão de que tudo não passa de uma obrigação dolorosa. De uma busca besta de autoafirmação forçada. De uma tentativa cega de parecer bem a todo custo. Estar feliz assim me parece tanta coisa, menos estar feliz de fato. Ser feliz assim me sugere quase tudo, menos felicidade. Aliás, eu sempre vou desconfiar, e muito, de quem sente e é qualquer coisa jogando na cara dos outros.

 

Reminiscências

Reminiscencias
Foto: Fabíola Lourenço

Tu bem sabes que por aqueles dias a gente já não se fazia mais tanta questão assim, não é? Mas não foi só isso, nossos desinteresses não pararam por aí, foram mais longe que a nossa boa vontade permitiu. E quando dei por mim, a tua música preferida já não me fazia mais efeito. Eu já não tentava dançar nem tirar os pés do chão, veja só. Eu havia perdido o ritmo, a harmonia, a cadência. Eu não conseguia mais te acompanhar.

Quando tentei te tomar em doses ainda maiores, fui todo anestesia. Tudo era silêncio, descompasso e pretérito imperfeito. E os desejos que tu me emprestaste, mandei devolver. Desocupei o guarda-roupa, o bagageiro do carro e os nossos porta-retratos sorridentes da cabeceira escondi. Queimei teus livros com as faíscas dos meus remorsos e não te consultei. Meus sentimentos por ti desequilibraram-se e caíram todos no esquecimento. Acabou o sentido e um mundo inteiro de considerações. Perdemo-nos para nós mesmos.

(Esse texto eu fiz em parceria com o menino Matheus Caravina, lá de São Paulo, que adora esconder o jogo, mas escreve lindamente aqui)