Vou contar

Vou Contar
Foto: Natália Viana

Ando tão distraído, amarrado em teus sentidos, que eu até me esqueço de escrever. Tua rotina tem preenchido meus dias e eu já nem me importo de acordar tão cedo, só pra ser o teu primeiro ‘bom dia!’, porque à noite, eu sei, se eu cochilar no sofá, o celular vai me acordar com o barulhinho que, na minha cabeça, já pronuncia teu nome, és tu me chamando pra deitar.

Tem sido assim desde o nosso primeiro encontro. Os acasos me tomam pela mão, me levam pra mais perto, te trazem pra dentro e me fazem tão bem, enquanto os meus pensamentos já se embalam no ritmo gostoso do teu sotaque. O meu coração grita gratidão tão alto que chego a achar que todo mundo já ouviu, não preciso repetir nem reproduzir no papel.

É que o encanto meio bobo com que você observa as minhas ruas, canta no meu ouvido, me come com os olhos e fala de amor, tudo isso me causa certo contentamento que de tão novo, eu nem sei dizer. Mas eu quero dizer! Eu preciso escrever e contar ao mundo que, nesses dias, tua vida tem feito a minha muito mais feliz.

Juro

 

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Um dia ainda publico um livro
capa bem bonita
metáforas coloridinhas
e faço essa gente me ler
que é pra eu poder dizer
que escrevi toda vida
por amor à literatura
e devoção às letras,
não por apego a ti.

 

Tem que rimar comigo!

 

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‘- Você aconselharia alguém a ser escritor?
– me perguntou um estudante.

– Tá querendo me gozar? – retruquei.
– Não, não, falo sério.
Aconselharia, como carreira?

– Escritor já nasce feito,
não é conselho que vai resolver’.

Charles Bukowski

 

Detesto escrita fácil, essas letras autônomas
e essas frases que já nascem caminhando sozinhas,
donas de si e tudo mais.
Não gosto mesmo! Texto tem que doer.
Tem que passar por mim deixando rastros,
lascos e outros pedaços.
Tentar ser, antes de qualquer coisa,
coerente com as minhas faltas
e só depois articular qualquer coesão
com as exigências lá fora.

Coisa triste esses poemas e contos que nascem em silêncio,
sem o menor escândalo e esperneios.
Melhor seria se tivessem batido em outras portas
e brotado em outras digitais, não aqui.
Escrever sentindo ameniza meu todo incompleto.
É como se as palavras me convidassem pra entrar,
pra fazer parte, e eu já nem me sinto só.

Texto pronto é abusivo,
tão maldito quanto o amor que
causam em ti sem que tu consigas
causar em troca. Porque são deles
a péssima mania de nos negar a experiência,
o rito, as cores, as dores e a própria existência.