Pernoite

Pernoite
Foto: Fabíola Lourenço

Mundo parado, relógio pifado. Prazeres dos céus, libido do cão! Canto de ouvido, arrepio de pele, quentura e desejo. Paixão no rosto e sorriso no corpo. Conversas intercalando o gozo e teus beijos me fazendo esquecer tudo lá fora. Meus gritos presos no teu travesseiro e a fumaça do teu cigarro pulando da minha janela. Lençóis embaraçados, línguas cruzadas e dois parecendo um. Diz que não vamos acabar aqui. Prometo te ligar amanhã. Uma noite para acordar os sonhos, abrir o peito e despertar pra vida. O mais próximo que cheguei do amor!

Amnésia

Amnésia FL
Foto: Fabíola Lourenço

Não me convide mais para te ver passar, percebes que não há mais motivo para nossas ruas se cruzarem? Depois de dias sentado neste sofá, materializando tua falta no corredor escuro da minha memória, pude ver o quanto és melhor à distância. Nossa história caiu no vazio e o saco se encheu. Durante todos esses anos, teu pouco caso foi o melhor que tive, mas só hoje eu vejo que nem nas raras vezes em que estiveste aqui, fui completo, metade de mim sempre foi o medo de te ver partir outra vez.

Tivemos todas as horas do mundo, mas o prazo de validade se esgotou. E a nós, o tempo só deu mesmo a chance de guardar o que foi bom, nada mais! Agora a gente parte tudo ao meio e cada um para o seu lado! Que você passe bem, mas que passe longe! Não vou riscar do calendário as datas em que teu nome me fez sorrir, só não me venha com a ideia de remexer sentimentos antigos, porque já não há mais o que resgatar. Enterremos todo o passado, sepultemos todos teus fingimentos! Prazer, meu nome é esquecimento!

2.8

Foto: Petterson Farias

Querem nos enfiar goela abaixo, isso de que só é bom se for pra sempre. As mudanças distanciam. As cidades viram outras. As afinidades se estranham. Nem tudo cabe mais num abraço. E pra eles, se não durou a vida toda, não prestou! Se não foi eterno, foi pela metade, algo à beira do vazio. Querem nos responsabilizar pelo curso natural da vida e nos isentar do movimento que ora nos aproxima, ora nos rouba a intimidade, mesmo sabendo que, na prática, a coisa sempre funcionou assim.

Aos 12, amei um amigo pra toda vida. Aos 15, ele se foi. Aos 18, jurei carregar pessoas pra aonde quer que eu fosse. Aos 23, duas delas restavam ao meu lado. 28 são os anos de agora e eu olho para o lado e vejo um a um, aqueles que aos 12, eu nem sabia que existiam. Se são poucos ou são muitos, me poupem da comparação. São eles que aqui estão! Estarão eles quando eu chegar aos 35, 49, 62? Dessa preocupação, eu não morro mesmo!

Coração não se preenche uma só vez. Por ele, pelos meus dias e pelas linhas da minha história, alguns ficarão e outros tantos passarão, mas isso é o que menos preocupa! Se me derem a certeza de que, não importando o tempo, o que se viveu foi bom, eu me darei por satisfeito. O que está de passagem também faz bem e novos amores oxigenam a alma que é uma beleza. E eu só quero que continue o que der prazer, as companhias que vêm e vão quando dá na telha, os amigos que, sem cobrança, entram e saem pela mesma porta sempre aberta e os amores que sejam capazes de deixar em mim marcas de histórias incríveis, que valerão sempre a pena viver, lembrar, contar e guardar.

Conversa Franca

Conversa Franca
Foto: Victoria Sales

Passo a vida tentando convencer o mundo de que meu coração é livre e o choro não existe. Dou murro em ponta de faca e cutuco um bando de sentimentos baratos, encorajado pela sensação de ser feito de carne, osso e liberdade! Brigo com o espelho, repetindo desprendimentos, certo de que depois de um, sempre vem outro(s). Porque, óbvio, o coração sabe bem que também há amores feitos para não durar!

Transito com certa leveza e cinismo entre paixões amarradas ao pé da cama, dedos tesos, corpos unidos e outros desejos suados! Eu te amo pra cá! Agora passa a língua pra lá! Mete mais que tá gostoso! Ai! Ui, gozei! Foi bom pra mim! Te deixo em casa? Até mais, um beijo, tchau!

Entro de peito aberto em outras vidas, viro do avesso e remexo tudo que quero, ciente de que o outro leu o manual e aceitou os termos de uso. Claro, ninguém aqui é criança, somos maduros o suficiente pra gerir qualquer sentimento que atente contra a moral e os bons costumes (do desapego), não é mesmo? Como pensei!

Até que por um descuido e uma porta aberta, o amor me desconstrói! E da pior maneira, transforma em castigo o que sempre me libertou. Chega dando vida às amarras antigas e aos piores sintomas que um coração tresloucado pode ter! Aí me dou conta de que, durante todo o tempo em que fingi independência e sobriedade, o outro pulou a cerca, para escancarar minhas janelas e me partir ao meio. E eu não tenho mais para aonde correr! O que me resta é sangrar mais uma vez a dor de estar preso a quem nunca foi meu por completo!

Fique!

 

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‘Repara bem no que não digo’.
Paulo Leminski

 

Talvez seja mais um nó ligando nós dois ao teu desacerto e eu, pra variar, perdido no teu embaraço! Minha sobriedade tem se amarrado em ti e anda querendo enlouquecer! Mas você diz que é só paixão e eu sinto que acredito. Tudo me soa tão passageiro que é bem capaz que seja mesmo… Sim, querido! Também sei reconhecer o efêmero das coisas, assim como você! Embora esse meu lado intenso de merda adore fingir eternidade em tudo, no fundo, em mim, tudo passa! E se você ainda não passou, sou eu que, depois de tudo, ou quase nada, ainda insisto em te querer alheio ao mundo, preso em mim. Por quanto tempo é o que eu não sei. Tem alguém na sala? Meu celular tocou! Era você me ligando? Já disse, não quero te ouvir! Vá pro diabo que te carregue! Não, não! Não temos o que conversar, vou ter que repetir? E pensando bem, nunca houve nó ligando a gente! Tudo não passou de carências transformadas em apego. Pra começar, o teu nome eu nem decorei! Quem é você, rapaz? HAHAHAHA. Sai da minha vida! Nunca houve espaço pra ti aqui, nós não passamos de remendos de outros casos, mais um daqueles trauminhas infantis de outros gozos… Droga! Mas por que me consome tanto? Hein?! Te fiz uma pergunta, me responde. Por que me absorve os nervos? Já vivi isso tantas vezes, nenhum sintoma é novo, ainda assim, eu não me reconheço! Que alívio saber que mal a próxima semana chega e já seremos passado, você vai estar bem longe! E depois de ti, virá outro e outro e mais outro e, daqui dois meses, tua imagem vai ser só mais um indício nessa imensidão de amores eternos que eu coleciono aqui! Não, meu bem, eu não vou lembrar do teu nome! Tudo vai ser esquecimento, samba antigo e as nossas vidas seguirão! Mesmo que agora pareça infinito, de novo o complexo do eterno, eu avisei! Mesmo que eu queira acreditar que você vai ficar! Mesmo que minhas dúvidas persistam e eu, não, eu não tô chorando! Mesmo que eu ainda não saiba se o que você deixa em mim é libido, amor ou um rombo maior que a própria vida, por saber que nunca vou ser teu! Mas eu nunca quis ser teu, por que eu tô dizendo isso? EU NÃO ESTOU G R I T A N D O ! O meu tom é esse, você sabe! Eu não quero mais te ver, eu nunca mais vou te atender! Tá me ouvindo? Alô?! O que você quer? Sim, tô sozinho! Vai passar aqui? Tô te esperando… Ah, claro! Como pensei! A distância talvez seja o melhor pra nós dois! A gente nunca daria certo mesmo! Some da minha vida, pelo amor de Deus! Vá pro inferno, cara! Antes que eu morra ou te mate! Você é o meu pior arrependimento, cacete! Eu te amo! Quer saber? Esse nó existe, sim, e ele tá me engasgando. Eu vou explodir!

 

Cacos

cacos
Foto: Fabíola Lourenço

Celebro o acaso que me fez te encontrar entre estas linhas e, em meio a tantos textos, o teu rosto até então disforme. Lembro-me dos amores que, assim como o teu, por aqui já passaram, aqui já moraram e que também se apressaram em ir, mas não sem antes deixar qualquer coisa de eterno em mim. Hoje, admito, não passo de um amontoado de traços indeléveis de todos eles!

Ando por estas letras que aqui sobraram, vestígios de fúria, impulsos e outros castigos. São as mesmas que um dia escreveram a minha vida, iludidas por histórias que se perderam antes mesmo do ponto final. Apesar de me fazerem inteiramente culpa, são as únicas que ainda me apontam o caminho certo pra seguir aquilo que insisto em chamar de futuro. Só por isso, eu as mantenho aqui.

Passeio entre estes cacos e decido, enfim, jogá-los fora, vê-los partir, não sem antes confessar que neles, sempre houve mais dos que se foram, e de todos vocês, que permanecem aqui, do que de mim!

 

Hoje

Hoje
Foto: Fabíola Lourenço

Teu domingo é a ponta do lençol estirada no cantinho do sossego, espreguiçando entre travesseiros pelo chão de um quarto escuro às dez da manhã. É o celular no silencioso, pro mundo lá fora não incomodar e o café da manhã em câmera lenta, pois hoje os minutos podem esperar.

É o sambinha tocando na TV e no rádio, acusando sentimentos esquecidos. É o livro aberto e o parágrafo que leste mais de três vezes pra resgatar a concentração e o compromisso que desmarcaste numa tentativa de adiar o tédio das relações inevitáveis.

Teu domingo são as horas de desleixo, pecado capital e nostalgia. São minhas marcas que, ainda ontem, deixei na tua cama, na tua vida, e que em vão vais passar a semana inteira tentando apagar.

Previsíveis

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Foto: Petterson Farias

Vais então perceber que tudo foi desespero e que aquilo que um dia chamaste de teu, nunca nem te pertenceu. Vais cair em si e sair por aí dando conta do que deixaste pra trás, só pra favorecer um sentimento que no fundo não passou de vaidade.

Vais te arrepender baixinho, com o coração amargo, esmurrando por dentro todas as cicatrizes que insistirão em lembrar o que te feriu. Vais olhar pro lado, com medo de ser notado e se escorar pelos cantos, tratando tuas perdas como sintomas de uma doença letal.

E não vais pedir ajuda, porque teu orgulho vai persistir naquela teimosia própria dos que sofrem só. Mas logo vais arranjar um culpado, alguém que leve tua culpa pra bem longe e te amenize a vergonha por acreditar em algo tão vil. E no final ainda vais dizer aos quatro cantos que eu não te avisei.

Confissão

 

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‘Compreendeu então que as metáforas são perigosas.
Não se brinca com as metáforas.
O amor pode nascer de uma simples metáfora’.
A Insustentável Leveza do Ser

 

As minhas vírgulas, amigo leitor, sou eu dizendo
em que partes da poesia você deve respirar.

Meus pontos te indicam quando deve seguir sozinho
e minhas metáforas dão indícios da tua compreensão.

Os meus segredos encontram sinônimos na tua vida
e as rimas que enfeitam meus versos te fazem dançar.

Meus textos são para dizer que,
em todas as vezes que seu coração sentiu,
você nunca esteve sozinho.