Casa Aberta

Foto: Petterson Farias

As pessoas demoram a acreditar nas rupturas. Já vi muitos amigos padecendo, por tentar levar às últimas consequências relações que poderiam acabar de forma amigável, só por achar que, por algum poder superespecial, conseguiriam reverter desgastes irremediáveis.

Não há nenhum mal em se afastar, em ser franco consigo mesmo e com o outro ao admitir que as coisas não se encaixam mais como antes. E outra: afastamentos e rupturas não precisam ter prazo de validade, pelo contrário. Algumas vezes, quando rompi com alguém, tempos depois, a conexão perdida foi retomada e de maneira ainda mais incrível. Isso porque o tempo que perderíamos somando ainda mais desgastes, aproveitamos para amadurecer; para dialogar com gente diferente; para oxigenar a alma com estímulos novos; e se dar conta, por fim, de que aquele relacionamento era sensacional, a gente é que não tava num bom momento para insistir.

“Ah, mas numa dessas, a pessoa pode ir e nunca mais voltar”. E quem tem o controle disso? Prendendo ou não, todo mundo tem o direito de ir e nunca mais voltar. Isso independe de mim. Entender isso é tirar uma tonelada de peso das costas e, mais leve, a gente consegue seguir. Algumas vezes, seguir junto por muito mais tempo, outras, até pra sempre, mas sem receio, sem neura, sem medo. Amigo, colega, namorado, esposa não são propriedades. Tem hora que sintoniza, pluga, casa, e é massa! Mas tem hora que não, paciência! E a nossa vida, não canso de repetir, é casa de portas abertas: as pessoas têm mais é que entrar e sair quando bem entender.

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Modo Avião

modo-aviao
Foto: Diego Dalmaso

De longe, tudo parece impossível
mas o que é mesmo a distância
se o que eu tenho aqui sinto tão dentro?

De perto, a coisa muda de figura
ainda mais quando a tua boca diz pra mim
um riso que quase ninguém vê

De cima, casinhas tão pequenas
geografias finitas, cidades mínimas
enquanto lá embaixo, aquele esforço enorme pra te alcançar
uma vida contada em milhas, trajetos absurdos,
quereres e renúncias brincando de ser feliz.

Vida é perspectiva. E ângulo é tudo!
Eu agora voo, pressurizado entre olhares estranhos e 30 mil pés.
Poltronas retas, cintos atados, nossa playlist em modo avião.
Vou ao teu encontro, longe de tudo, perto de nós, sendo só teu.
Quer perspectiva mais linda?

 

Vou contar

Vou Contar
Foto: Natália Viana

Ando tão distraído, amarrado em teus sentidos, que eu até me esqueço de escrever. Tua rotina tem preenchido meus dias e eu já nem me importo de acordar tão cedo, só pra ser o teu primeiro ‘bom dia!’, porque à noite, eu sei, se eu cochilar no sofá, o celular vai me acordar com o barulhinho que, na minha cabeça, já pronuncia teu nome, és tu me chamando pra deitar.

Tem sido assim desde o nosso primeiro encontro. Os acasos me tomam pela mão, me levam pra mais perto, te trazem pra dentro e me fazem tão bem, enquanto os meus pensamentos já se embalam no ritmo gostoso do teu sotaque. O meu coração grita gratidão tão alto que chego a achar que todo mundo já ouviu, não preciso repetir nem reproduzir no papel.

É que o encanto meio bobo com que você observa as minhas ruas, canta no meu ouvido, me come com os olhos e fala de amor, tudo isso me causa certo contentamento que de tão novo, eu nem sei dizer. Mas eu quero dizer! Eu preciso escrever e contar ao mundo que, nesses dias, tua vida tem feito a minha muito mais feliz.

Previsíveis

previsiveis
Foto: Petterson Farias

Vais então perceber que tudo foi desespero e que aquilo que um dia chamaste de teu, nunca nem te pertenceu. Vais cair em si e sair por aí dando conta do que deixaste pra trás, só pra favorecer um sentimento que no fundo não passou de vaidade.

Vais te arrepender baixinho, com o coração amargo, esmurrando por dentro todas as cicatrizes que insistirão em lembrar o que te feriu. Vais olhar pro lado, com medo de ser notado e se escorar pelos cantos, tratando tuas perdas como sintomas de uma doença letal.

E não vais pedir ajuda, porque teu orgulho vai persistir naquela teimosia própria dos que sofrem só. Mas logo vais arranjar um culpado, alguém que leve tua culpa pra bem longe e te amenize a vergonha por acreditar em algo tão vil. E no final ainda vais dizer aos quatro cantos que eu não te avisei.