Previsíveis

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Foto: Petterson Farias

Vais então perceber que tudo foi desespero e que aquilo que um dia chamaste de teu, nunca nem te pertenceu. Vais cair em si e sair por aí dando conta do que deixaste pra trás, só pra favorecer um sentimento que no fundo não passou de vaidade.

Vais te arrepender baixinho, com o coração amargo, esmurrando por dentro todas as cicatrizes que insistirão em lembrar o que te feriu. Vais olhar pro lado, com medo de ser notado e se escorar pelos cantos, tratando tuas perdas como sintomas de uma doença letal.

E não vais pedir ajuda, porque teu orgulho vai persistir naquela teimosia própria dos que sofrem só. Mas logo vais arranjar um culpado, alguém que leve tua culpa pra bem longe e te amenize a vergonha por acreditar em algo tão vil. E no final ainda vais dizer aos quatro cantos que eu não te avisei.

Minha reza

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Foto: Petterson Farias

Livrai-me dessa gente alheia, assim muito autossuficiente, bem como dos indiferentes, esses que quase sempre têm preguiça de sentir; dos que por si só não se movimentam; daqueles que me partem ao meio, mas em troca não me oferecem nada.

Livrai-me dessa gente que sai de casa sem seus “bom dia”, vírgulas, vocativos e plurais; dos lentos em caixas eletrônicos; daqueles críticos ao extremo; dos mal educados no trânsito; dos que me pedem emprestado o que nunca vão devolver; sobretudo, dos relacionamentos e sujeitos rasos, que fazem questão de me puxar pra superfície, mesmo quando todas as possibilidades e vontades me querem mergulhar.

Sim, dos amores pela metade também; das religiões intolerantes, pelo amor de Deus; das poltronas apertadas de avião; das comidas sem sal; da insônia constante; das conversas longas pelo celular; do receio de ouvir minha própria voz; das canções que me desnudam (mentira, dessas não); dos trabalhos que só rendem dinheiro e pouco prazer; de ter que dar satisfação ou a mesma resposta mais de uma vez, por favor!

Livrai-me das roupas e sentimentos que não me cabem mais; dessas relações que me roubam o silêncio; desse amontoado de ideias inertes que nunca ganham vida; assim como de todas as minhas abstinências que fazem tudo isso ser maior do que de fato é, amém!

 

Pra Viagem

Pra Viagem
Foto: Fabíola Lourenço

Onde mesmo foi parar aquele instinto todo de construção?
Em que ponto nos tornamos isto?
Coisa precipitada que mal deseja e já quer consumir.

Mania feia essa de querer tudo pronto, meu Deus.
Das relações, não mais o instante e a libido, só o princípio e fim.
Como a gente consegue?

Pois que me permitam gostar do inacabado.
Não tenho pressa alguma. Optei pelo devagar.
Todo tempo do mundo, aliás, é o que disponho.
Que compreendam meu apego pelo disforme.
Que não reparem quando o incompleto eu decidir amar.

Me deem o direito de não ser pra agora.
De ser projeção, paciência, sonho, apenas parte.
Peça por peça, caco por caco,
uma
coisa
de
cada
vez.