Casa Aberta

Foto: Petterson Farias

As pessoas demoram a acreditar nas rupturas. Já vi muitos amigos padecendo, por tentar levar às últimas consequências relações que poderiam acabar de forma amigável, só por achar que, por algum poder superespecial, conseguiriam reverter desgastes irremediáveis.

Não há nenhum mal em se afastar, em ser franco consigo mesmo e com o outro ao admitir que as coisas não se encaixam mais como antes. E outra: afastamentos e rupturas não precisam ter prazo de validade, pelo contrário. Algumas vezes, quando rompi com alguém, tempos depois, a conexão perdida foi retomada e de maneira ainda mais incrível. Isso porque o tempo que perderíamos somando ainda mais desgastes, aproveitamos para amadurecer; para dialogar com gente diferente; para oxigenar a alma com estímulos novos; e se dar conta, por fim, de que aquele relacionamento era sensacional, a gente é que não tava num bom momento para insistir.

“Ah, mas numa dessas, a pessoa pode ir e nunca mais voltar”. E quem tem o controle disso? Prendendo ou não, todo mundo tem o direito de ir e nunca mais voltar. Isso independe de mim. Entender isso é tirar uma tonelada de peso das costas e, mais leve, a gente consegue seguir. Algumas vezes, seguir junto por muito mais tempo, outras, até pra sempre, mas sem receio, sem neura, sem medo. Amigo, colega, namorado, esposa não são propriedades. Tem hora que sintoniza, pluga, casa, e é massa! Mas tem hora que não, paciência! E a nossa vida, não canso de repetir, é casa de portas abertas: as pessoas têm mais é que entrar e sair quando bem entender.

Anúncios

Do Amigo

Foto: Petterson Farias

Eu já desejei que te batessem na rua, só pra tu aprenderes a falar menos, não vou longe, ontem mesmo. Andamos juntos no escuro, agarrei tua mão gelada e corri por ruas tortuosas num final de semana de praia, sim, com altas doses etílicas na cabeça. Depois de um feriado libertino, te acordei aos gritos perguntando pela posse da presidente, mas ainda era Dia de Finados. Ri de ti caindo da rede. Dividi a minha rede contigo. Caí contigo da rede!

Eu te encontrei quando todo mundo dizia que não se consegue ter amigos no trabalho e li várias mensagens tuas no whatsapp imitando a tua voz. Topei ver filme ruim no cinema só pra ter tua companhia e constatei que viagem sem ti não é viagem boa. Falei pra não te meteres com gente errada e que pegar aquele escroto era cilada. Claro que eu também já quis te matar, por pegar antes de mim todos os caras que eu desejei.

Corrigi teu português pífio e te dei conselhos, como se deles eu também não precisasse. Quis te namorar, só pra te provar que és incrível demais pra continuar solteira. Agradeci quando, na falta dos grandes amores, foste a melhor companhia e acalmou meu coração, porra, por que a gente nunca transou? Talvez nem saibas disso, mas uma vez pedi dinheiro emprestado pra não faltar o teu aniversário. Massageei tuas costas pra dor da ressaca passar rápido, vomitei teu sítio e, muito bêbado, joguei um copo de água gelada na tua cara. Mas também passei meses planejando o melhor presente do mundo pra te dar, só pra te ver feliz. Falei de ti pros meus amigos com tanto entusiasmo que eles desejaram ser teus amigos também.

Já confundi amor com amizade e quase te perdi. Eu ouvi teu choro de madrugada, isso é hora, mana? Odiei os machos que te sacanearam e te abracei apertado no meio da balada quando a nossa música preferida tocou. Já atravessamos Minas Gerais com R$ 1,50 no bolso. Mas levamos o hotel abaixo quando nosso dinheiro caiu na conta. Falei tão bem de ti pra minha mãe, que ela achou que eu tava te comendo. Sim, chorei escondido no banheiro quando tu me chamaste pra ser padrinho do teu casamento. Chorei no avião, chorei no altar, chorei te abraçando. Que noite incrível! Falei pra ti que era gay e só me abraçaste, dizendo que isso não mudava absolutamente nada. Tu dividiste tua comida e a tua casa comigo quando eu não sabia o que era futuro e foi além ao me pedir perdão, quando eu achei que nossas vidas nem mais se cruzariam.

As pessoas se constrangeram com teus risos escandalosos, eu fui lá e ri contigo. Perdi amizades por tua causa e que vontade que eu tive de meter a mão na tua cara, mas a varanda da minha casa sempre foi mais legal contigo nela. Que não nos ouçam, mas um dia deixei de ir pra festa, só porque disseste que não ia. Derrubei a TV do teu quarto, com medo dos teus gatos. Abriste a tua casa pra mim e nem brigaste comigo quando deixei a porra da garrafa de água encher até transbordar, molhando a cozinha inteira. Tu me confiaste a senha das tuas redes sociais e do teu cartão de crédito, eu te confiei meus podres amores, minhas carências e meus egoísmos.

Tu foste porta de entrada em lugares que só em sonhos eu imaginava pisar. A gente se abraçou chorando no réveillon depois de meses chateados um com o outro e te reconheceram num aplicativo de pegação depois que te viram no meu snapchat. Tropeçamos juntos entre cervejas, moto-táxis, gritos e alegrias no melhor carnaval do mundo. Pensamos diferentes, mas nunca tentamos anular as preferências um do outro. Foste a primeira pessoa que corri pra contar quando comecei a namorar. Chorei quando nos despedimos e até deixei de ir naquele restaurante que só íamos juntos. Eu fui a pior pessoa durante o teu luto e, mesmo assim, continuas sendo o melhor contraponto dos meus exageros.

Tentaste manter em segredo, mas eu descobri quem tu estavas pegando escondido, seu sacana! Eu te confidenciei segredos, sem a gente nunca nem ter se visto pessoalmente. Teu telefone é o único que sei de cabeça até hoje. Li livros, ouvi canções, escrevi textos e só pensei em ti. Eu fiz uma piada pesada em público e só tu entendeste. Como gargalhamos! E no silêncio, refleti sobre o prazer que é ter alguém em quem confiar, mesmo que a gente nunca tenha se dito isso.

Ouvi teus desabafos numa noite gelada do Chile e dividi uma casa contigo e mais oito na Ilha do Marajó. Guardo até hoje nossos melhores dias na faculdade, no quintal da tua casa, nos aniversários da tua família. Eu abracei teu filho com todo amor do mundo. Antecipei teus gestos, desmenti teus discursos e, olhando nos teus olhos, falei que pra mim não precisavas inventar nada, eu sabia de tudo! A dor e a delícia de se conhecer alguém até do avesso! Amaldiçoei o mundo quando rompemos a amizade, mas sei que o que ficou é o que importa. Entendi que somos melhores quando distantes e isso não invalida em nada o que sentimos um pelo outro. Chorei tua morte durante uma semana, como se um pedacinho de mim estivesse indo ali, enterrado contigo. Mas agradeço todos os dias por teres cruzado o meu caminho!

Hoje, tu transitas neste texto, cheio de histórias e memórias que têm feito de mim o que sou. Tu sabes que estás aqui, não preciso te dizer isso. O que talvez tu não saibas é que te ter por perto ainda me dá sossego e me torna um sujeitinho menos ranzinza e muito mais feliz.

Mutação

Mutação

O amigo virou as costas, virou qualquer coisa, hoje não passa pela minha porta, não passa de um estranho! O desafeto sorriu pra mim, me chamou pra beber, e o meu orgulho, engoli de uma vez só. O outro, que até então não passava de um desconhecido, dormiu comigo, amanheceu na minha vida e manchou meus lençóis. Enquanto o amor da minha vida saiu sem avisar e, sem esvaziar as gavetas e meus dias, resolveu outras vidas enfeitar. Ah, mas o que é mesmo a vida da gente se não essa estação lotada de pessoas que vão e vêm?

2.8

Foto: Petterson Farias

Querem nos enfiar goela abaixo, isso de que só é bom se for pra sempre. As mudanças distanciam. As cidades viram outras. As afinidades se estranham. Nem tudo cabe mais num abraço. E pra eles, se não durou a vida toda, não prestou! Se não foi eterno, foi pela metade, algo à beira do vazio. Querem nos responsabilizar pelo curso natural da vida e nos isentar do movimento que ora nos aproxima, ora nos rouba a intimidade, mesmo sabendo que, na prática, a coisa sempre funcionou assim.

Aos 12, amei um amigo pra toda vida. Aos 15, ele se foi. Aos 18, jurei carregar pessoas pra aonde quer que eu fosse. Aos 23, duas delas restavam ao meu lado. 28 são os anos de agora e eu olho para o lado e vejo um a um, aqueles que aos 12, eu nem sabia que existiam. Se são poucos ou são muitos, me poupem da comparação. São eles que aqui estão! Estarão eles quando eu chegar aos 35, 49, 62? Dessa preocupação, eu não morro mesmo!

Coração não se preenche uma só vez. Por ele, pelos meus dias e pelas linhas da minha história, alguns ficarão e outros tantos passarão, mas isso é o que menos preocupa! Se me derem a certeza de que, não importando o tempo, o que se viveu foi bom, eu me darei por satisfeito. O que está de passagem também faz bem e novos amores oxigenam a alma que é uma beleza. E eu só quero que continue o que der prazer, as companhias que vêm e vão quando dá na telha, os amigos que, sem cobrança, entram e saem pela mesma porta sempre aberta e os amores que sejam capazes de deixar em mim marcas de histórias incríveis, que valerão sempre a pena viver, lembrar, contar e guardar.

esse papo de amizade

 

tumblr_mj7nd2dXKD1qmqha2o1_400

 

‘Há os que amaram uma vez em silêncio,
sem se declarar, e trazem dentro do peito
essa granada que não foi detonada.
Há os que se declararam e foram rejeitados,
e a granada estraçalhou tudo por dentro,
mesmo que ninguém tenha notado’.

Martha Medeiros

 

um ítalo pro riso ser bem maior
e uma suzi pra eu ser total admiração

uma hérica pra entender tudo que sinto
e uma marina porque a inocência nunca foi meu forte

uma géssyca pra eu ignorar as distâncias
e uma gabriela pra provar que elas nunca existiram

uma carol pro abraço mais encaixado
um vinny porque bom humor é fundamental
e uma luiza pra gente se gostar em silêncio

uma fabíola pra falar de amor
uma anna karla pra entender o amor
uma bruna pra praguejar comigo esse mesmo amor
e uma vida inteira pra bendizer essas histórias que a gente
vai, assim, meio sem querer, escrevendo no deslizar dos dias

esses sujeitos que vamos encontrando pelo caminho
e os enxergamos diferentes, chamando-os de amigos
tudo seria tão mais chato sem eles
absurdamente monótono e repetitivo

nada seria tão bom quanto esses dias
em que optamos por não estar só
e sentimos um orgulho danado de quem
caminha ao nosso lado

 

~pelo dia do amigo e por todos os outros~

 

Insira um ‘eu te amo’ aqui

Insira um eu te amo
Foto: Fabíola Lourenço

Os românticos assumidos que me perdoem,
mas os introspectivos me comovem mais.
Não que as declarações fáceis desapontem,
mas é que o desabafo inesperado me agrada mais.

Aquele sentimento calado, reverberado no silêncio,
que quando vem à tona, explode meio sem modos,
atropelado e desajeitado, exalando embaraço e timidez.

Nada contra os adeptos da franqueza,
das confissões provocadas sem o menor esforço,
mas que delícia arrancar as relutantes palavras,
que num instante te dizem tanto daquele amor
que você sempre soube ser tão grande.

 

O Mínimo

Foto: Fabíola Lourenço
Foto: Fabíola Lourenço

Num dia diminuem os círculos. Reduzem-se os braços, sorrisos, abraços. Noutro, as pessoas e os apoios. Ontem um, hoje dois, amanhã, sabe Deus! E quando tu vês, nos dedos já se contam todos.

Num dia tu desaprendes a receita do exagero. Noutro, tu entendes que filtrando as sobras, fica o essencial, o necessário. A parte mínima que inspira, quase nada, porém tudo.