Último Pedido

Ultimo Pedido
Foto: Petterson Farias

Não apague nossas fotos, não me afaste das tuas lembranças à força, nem jogue todas aqueles nossos dias fora. Deixe o passado viver o tempo que for e a tua cabeça dizer que o que se foi não oferece mais perigo. Não vire as costas quando me notares passando apressado pelas ruas do teu presente, não quero te machucar nem te constranger, mas é que, mesmo longe, tenho sobrevivido e seguido meu rumo acreditando nas paixões que ainda toparei no caminho, nos amores que ainda virão.
Não passe a nossa música, por favor! Deixe todas as faixas tocar, mesmo que tu não cantes mais ao fundo e o teu silêncio se misture ao refrão dos instantes que já se foram. Garanto que logo as letras perdem o sentido e a melodia vai te dizer que nem fui tão importante assim. Só não queira fazer o papel do tempo, me deixe viver aqui enquanto for necessário. Prometo não te fazer mal!
E não te esqueça do meu nome. Lembras? Já fui parte de ti, eu já morei aí! Na hora certa, saberei te dizer adeus, mas nada é pra agora, me deixe ficar! Porque distante de todas as minhas vontades e alheio a tudo que desejei pra nós dois, o nosso fim foi outro, eu nunca quis assim, eu sonhei pra sempre te ter! Soluce baixinho e durma até passar, eu estarei aqui, mas, já te disse, não vou demorar! Ficarei só até nossas fotos se perderem nos anos, nossa música riscar o disco e o meu nome não mais lembrares. Aí então, sem tu notares, terei ido, e serei só mais um na multidão das tuas memórias, só alguém que mesmo errando fez parte da tua vida, escreveu contigo algumas histórias e quis te ver assim, como estás agora, ainda mais linda e feliz!

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Vambora

Vambora

Sendo inércia de nós mesmos
viciados num movimento constante
que nunca deu em nada

Mundo puxando pra cima
e o peito soterrado
nos guiando pra baixo

Medo de ir sem passagem de volta
mas por que mesmo se o
inesperado é o que importa?

Vamos nos perder
A gente volta quando der!
Vamos que o mundo é nosso
A gente mergulha até não dar mais pé!

Mutação

Mutação

O amigo virou as costas, virou qualquer coisa, hoje não passa pela minha porta, não passa de um estranho! O desafeto sorriu pra mim, me chamou pra beber, e o meu orgulho, engoli de uma vez só. O outro, que até então não passava de um desconhecido, dormiu comigo, amanheceu na minha vida e manchou meus lençóis. Enquanto o amor da minha vida saiu sem avisar e, sem esvaziar as gavetas e meus dias, resolveu outras vidas enfeitar. Ah, mas o que é mesmo a vida da gente se não essa estação lotada de pessoas que vão e vêm?

Pernoite

Pernoite
Foto: Fabíola Lourenço

Mundo parado, relógio pifado. Prazeres dos céus, libido do cão! Canto de ouvido, arrepio de pele, quentura e desejo. Paixão no rosto e sorriso no corpo. Conversas intercalando o gozo e teus beijos me fazendo esquecer tudo lá fora. Meus gritos presos no teu travesseiro e a fumaça do teu cigarro pulando da minha janela. Lençóis embaraçados, línguas cruzadas e dois parecendo um. Diz que não vamos acabar aqui. Prometo te ligar amanhã. Uma noite para acordar os sonhos, abrir o peito e despertar pra vida. O mais próximo que cheguei do amor!

Amnésia

Amnésia FL
Foto: Fabíola Lourenço

Não me convide mais para te ver passar, percebes que não há mais motivo para nossas ruas se cruzarem? Depois de dias sentado neste sofá, materializando tua falta no corredor escuro da minha memória, pude ver o quanto és melhor à distância. Nossa história caiu no vazio e o saco se encheu. Durante todos esses anos, teu pouco caso foi o melhor que tive, mas só hoje eu vejo que nem nas raras vezes em que estiveste aqui, fui completo, metade de mim sempre foi o medo de te ver partir outra vez.

Tivemos todas as horas do mundo, mas o prazo de validade se esgotou. E a nós, o tempo só deu mesmo a chance de guardar o que foi bom, nada mais! Agora a gente parte tudo ao meio e cada um para o seu lado! Que você passe bem, mas que passe longe! Não vou riscar do calendário as datas em que teu nome me fez sorrir, só não me venha com a ideia de remexer sentimentos antigos, porque já não há mais o que resgatar. Enterremos todo o passado, sepultemos todos teus fingimentos! Prazer, meu nome é esquecimento!

Gay

gay
Foto: Petterson Farias

O gay não quer conhecer teu melhor amigo gay, só porque eles dois são gays. Ele não quer a tua gargalhada 24h por dia, se a relação de vocês se reduz a um palhaço e um espectador, muito menos ser o ‘baitola’ do time adversário, que tu gritas no momento de fúria ou encarnação. Nem sempre ele quer evidenciar a sua sexualidade, poxa, há outras tantas características e qualidades a serem notadas, é só se esforçar um pouquinho mais. O gay quer ser visto com seu(a) namorado(a) sem ser o centro das atenções, afinal, são só duas pessoas que se gostam, como tantas outras por aí, vai dizer que não?! O gay não quer ser a pouca vergonha da sua família, só porque beija meninos ou meninas, ele também quer, embora não pareça, ser orgulho de pai e mãe, mesmo quando ninguém reconhece seus esforços nos estudos, no trabalho e na tentativa de ser alguém na vida. Não quer ainda ser obrigado a responder sobre as namoradinhas, quer, sim, manter suas relações sexuais tão desimportantes para o curso natural de outras vidas quanto a fofoca sobre a atriz da novela das seis. O gay não quer ser o ‘nada contra, mas…’ da vida de ninguém! Ele quer distância das tuas convicções religiosas e das tuas opiniões emprestadas de discursos pela metade. O gay anda cansado do teu ‘humm, viadinho!’ depois que desliga o telefone ou bate a porta, e pra ele, pouco importa se tu és discreto ou não curtes afeminados. O gay não quer ser somente o gay da rodinha, não quer ter um relacionamento gay, ser apaixonado por música gay e ser um fissurado por cultura gay. Ele só quer ter o mesmo direito (pra quem vê de fora, parece besta) de ouvir o que quer, comer quem quiser, amar quem bem entender e ser chamado pelo nome, sim, sem rótulos e adjetivos forçados, sua bicha!

E talvez – era nesse ponto que eu queria chegar -, o teu silêncio possa ajudar bem mais do que o desconcerto disfarçado de comoção/euforia ao ver dois caras ou duas meninas se beijando. Tem apoio, vamos combinar, que não precisa ser dito, né?! As ações sempre acabam por justificar as intenções, vai por mim. Já parou pra pensar que não querer achar ou evidenciar o diferente é também uma forma de dizer que ali há igualdade? Que não se incomodar com o que difere de ti é reduzir o preconceito a nada? Que não manifestar solidariedade, às vezes, é tão bom quanto não manifestar repulsa? Já que não perceber é tornar natural e a naturalidade tende a engavetar as diferenças. Que passar por um casal na rua sem crescer o olho como se enxergasse uma aberração é também dizer ‘nós somos iguais!’? Pois é! E se somos iguais, não há canto de olho, desconfiança ou espanto! Há somente a incrível constatação de que tem espaço, dignidade, respeito e amor para todos, sem exceções.

2.8

Foto: Petterson Farias

Querem nos enfiar goela abaixo, isso de que só é bom se for pra sempre. As mudanças distanciam. As cidades viram outras. As afinidades se estranham. Nem tudo cabe mais num abraço. E pra eles, se não durou a vida toda, não prestou! Se não foi eterno, foi pela metade, algo à beira do vazio. Querem nos responsabilizar pelo curso natural da vida e nos isentar do movimento que ora nos aproxima, ora nos rouba a intimidade, mesmo sabendo que, na prática, a coisa sempre funcionou assim.

Aos 12, amei um amigo pra toda vida. Aos 15, ele se foi. Aos 18, jurei carregar pessoas pra aonde quer que eu fosse. Aos 23, duas delas restavam ao meu lado. 28 são os anos de agora e eu olho para o lado e vejo um a um, aqueles que aos 12, eu nem sabia que existiam. Se são poucos ou são muitos, me poupem da comparação. São eles que aqui estão! Estarão eles quando eu chegar aos 35, 49, 62? Dessa preocupação, eu não morro mesmo!

Coração não se preenche uma só vez. Por ele, pelos meus dias e pelas linhas da minha história, alguns ficarão e outros tantos passarão, mas isso é o que menos preocupa! Se me derem a certeza de que, não importando o tempo, o que se viveu foi bom, eu me darei por satisfeito. O que está de passagem também faz bem e novos amores oxigenam a alma que é uma beleza. E eu só quero que continue o que der prazer, as companhias que vêm e vão quando dá na telha, os amigos que, sem cobrança, entram e saem pela mesma porta sempre aberta e os amores que sejam capazes de deixar em mim marcas de histórias incríveis, que valerão sempre a pena viver, lembrar, contar e guardar.