SSA

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Foto: Petterson Farias

Eu te encontro depois das nove, na porta de casa, numa dessas terças de carnaval. No beijo inédito, mas nada tímido, no cheiro meu que agora é teu. Entre olhos azuis, encartes rosas e rios vermelhos, te encontro ainda numas distâncias tão próximas que nem sei. E nos sotaques, sons e poesias que eu já admirava há tempos mesmo sem saber que tua vida também delas se constituía. Eu te encontro no que é agora, nas libidos que são pra já, nas paixões e impulsos que nasceram pra não perder tempo. Não nos demos o trabalho de ser pra depois nem carregamos o peso do amanhã. Eu estou contigo aí, você mora comigo aqui. E isso é tudo!

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Pretérito Imperfeito

Pretérito Imperfeito
Foto: Petterson Farias

Eu queria ter ficado aqui, entre aqueles braços tortuosos que me desviavam do caminho e me apontavam o infinito; entre aqueles traços tatuados que faziam meus dedos se perderem, guias do meu sorriso, laços feitos para me prender.

Eu queria ter morado naquele nosso encaixe demorado, porque se tuas mãos eram pesadas demais, o ar não me fazia falta; queria ter me perdido naqueles músculos e minutos que me apertavam, porque no teu colo, eu mal notava o tempo, eu só pedia mais.

Eu queria ter deixado tudo lá fora, sem ver a realidade tentando invadir, o mundo querendo entrar, porque tudo aqui era só nosso, tudo em ti me bastava. Eu queria ter ficado aqui, alheio aos estragos do que viria depois, mas você não ficou!

O que é a vida?

Foto: Fabíola Lourenço

Talvez falte coragem pra dar o braço a torcer e, por fim, entender que a vida é isso: instantes em nada compromissados com o futuro; impulsos e pessoas para se viver agora, e, em seguida, deixar correrem soltos por aí, desprendendo-se das intenções e expectativas mortas antes mesmo de vir à luz.

Movimento incessante do mundo, ora tudo, ora pouco demais. A certeza de que nada nos pertence, nem nós mesmos. E sendo toda gente bichos livres, o que nos resta é sair por aí florescendo o que há de bom no outro, mas certo de que viver pressupõe ir e vir, pegar e largar, reunir e separar, e, vez ou outra, ir pra nunca mais voltar. Somos ocasiões, desprendimentos, distanciamentos, chegadas e partidas. Não passamos de trocas e sentimentos que o tempo sempre trata de modificar, amortizar, acentuar e matar para nos fazer, cotidianamente, sobreviver.

Talvez só nos falte leveza e sensibilidade suficientes para compreender que a vida boa é feita de tudo aquilo que nasceu pra não durar!

Nossas Coisas

Nossas Coisas
Foto: Alberto Pereira Jr.

Acredito ter perdido muitas coisas pelas ruas tortas da vida. Algumas deixei de propósito no bolso rasgado da tua camisa amarrotada, outras escondi nas malas da nossa última viagem, que você não quis desarrumar.

Acredito ter ganhado muitas coisas pelas esquinas retas do mundo, entre abraços escondidos, machucados esquecidos e músicas preferidas. Algumas vieram de terras estrangeiras e hoje moram aqui em mim, aí em ti; outras germinam dias melhores, no ritmo das palavras que nunca são ditas, da alegria que é te ter em silêncio.

Entre as coisas que todo santo dia ganho e abandono, eu só navego. Acredito na vida que há entre teus abraços e nossas ausências. E nesses tempos de ventos fortes e retratos sem fim, não me apresso nem lamento, só caminho querendo não tropeçar, deixando as coisas acontecerem noutro ritmo, assim bem devagar.

(Texto feito em parceria com o menino Alberto Pereira Jr.)

Último Pedido

Ultimo Pedido
Foto: Petterson Farias

Não apague nossas fotos, não me afaste das tuas lembranças à força, nem jogue todas aqueles nossos dias fora. Deixe o passado viver o tempo que for e a tua cabeça dizer que o que se foi não oferece mais perigo. Não vire as costas quando me notares passando apressado pelas ruas do teu presente, não quero te machucar nem te constranger, mas é que, mesmo longe, tenho sobrevivido e seguido meu rumo acreditando nas paixões que ainda toparei no caminho, nos amores que ainda virão.
Não passe a nossa música, por favor! Deixe todas as faixas tocar, mesmo que tu não cantes mais ao fundo e o teu silêncio se misture ao refrão dos instantes que já se foram. Garanto que logo as letras perdem o sentido e a melodia vai te dizer que nem fui tão importante assim. Só não queira fazer o papel do tempo, me deixe viver aqui enquanto for necessário. Prometo não te fazer mal!
E não te esqueça do meu nome. Lembras? Já fui parte de ti, eu já morei aí! Na hora certa, saberei te dizer adeus, mas nada é pra agora, me deixe ficar! Porque distante de todas as minhas vontades e alheio a tudo que desejei pra nós dois, o nosso fim foi outro, eu nunca quis assim, eu sonhei pra sempre te ter! Soluce baixinho e durma até passar, eu estarei aqui, mas, já te disse, não vou demorar! Ficarei só até nossas fotos se perderem nos anos, nossa música riscar o disco e o meu nome não mais lembrares. Aí então, sem tu notares, terei ido, e serei só mais um na multidão das tuas memórias, só alguém que mesmo errando fez parte da tua vida, escreveu contigo algumas histórias e quis te ver assim, como estás agora, ainda mais linda e feliz!

Vambora

Vambora

Sendo inércia de nós mesmos
viciados num movimento constante
que nunca deu em nada

Mundo puxando pra cima
e o peito soterrado
nos guiando pra baixo

Medo de ir sem passagem de volta
mas por que mesmo se o
inesperado é o que importa?

Vamos nos perder
A gente volta quando der!
Vamos que o mundo é nosso
A gente mergulha até não dar mais pé!

Mutação

Mutação

O amigo virou as costas, virou qualquer coisa, hoje não passa pela minha porta, não passa de um estranho! O desafeto sorriu pra mim, me chamou pra beber, e o meu orgulho, engoli de uma vez só. O outro, que até então não passava de um desconhecido, dormiu comigo, amanheceu na minha vida e manchou meus lençóis. Enquanto o amor da minha vida saiu sem avisar e, sem esvaziar as gavetas e meus dias, resolveu outras vidas enfeitar. Ah, mas o que é mesmo a vida da gente se não essa estação lotada de pessoas que vão e vêm?