Cartas do Fim

Foto: Petterson Farias

Ei, tudo bem?

Hoje fui ao show dele, nosso cantor preferido. Aliás, acabei de voltar de lá. Fui com tantos receios que você nem vai acreditar. Ah, não sei… É que quando terminamos, senti um orgulho tão novo pra mim, alegre de ver como as coisas aconteceram, todo esse cuidado que tivemos um com o coração do outro até o derradeiro abraço, sabe?

E essa satisfação toda me anestesiou. Foi como olhar pra baixo, não enxergar o chão e, de repente, cair em rede de circo. Queda amortecida, coração indolor. Ufa! Vivo! Mas hoje, diante da ideia de ter tanto das tuas ruas no meu quintal, com ele cantando os versos que embalaram muito do nosso amor nesses quase quatro anos, tive medo de errar a dança, tropeçar no compasso e estragar tudo. E estragar tudo quer dizer: me entristecer em meio às recordações, ao me remeter à sua cidade, aos seus mares, ao carnaval das suas avenidas, aos momentos bonitos que nos proporcionamos. Só que foi o inverso. Porque você, constatei, é e sempre vai ser uma parte linda da minha vida, um dos trechos mais doces e apaixonados dessa minha jornada.

Olhinhos fechados e outros refrões na cabeça. Pedacinhos da nossa história vagando a cada verso. Doces memórias. Casa de praia. Viagem à Nova York. Seu primeiro dia nas bandas de cá. Meu vício em tudo daí. Teu ‘bom dia’ de estimação. Dezenas de quartos de hotéis… E trocentos novos jeitos de lembrar de você. 

E é por isso que te escrevo agora, assim no susto, quatro e trinta da madrugada, enquanto, aposto, você dorme jogado no sofá da sala, porque chegou em casa, se deitou pra mexer no celular e se esqueceu de levantar. Digitando por impulso e buscando não sei onde o melhor jeito de te dizer mais uma vez ‘obrigado’. Roubamos de nós mesmos a chance da última ligação e, sem voz, o coração sufocou um cadinho de palavras, ficou faltando eu te dizer algumas coisas. Todas elas imensamente boas. E sinto que todas elas, você merecia ouvir. 

Obrigado por ter sido cuidadoso e bom na medida com esse ser aqui, reprovado tantas vezes na matéria de relacionamentos. Isso é algo que eu tenho falado a todos que me perguntam de ti. Você foi excepcional do início ao fim. E eu faria tudo de novo! Porque se estou saindo de um relacionamento contrariando as estatísticas – que tentam provar por A + B que terminar é sofrer -, sem mágoas, agonias e tristezas, a culpa é toda nossa. Estou feliz, apesar desse leve incômodo que, segundo minha terapeuta, implica o luto temporário. Lembrar você me alegra o peito. 

Sei que não controlo coração alheio, mal dou conta do meu, mas eu espero sinceramente que você esteja sentindo algo parecido por aí. Caso não, desculpa. Tentei ser o melhor e o melhor que pude te entregar, eu entreguei. Do meu livro preferido aos beijos mais apaixonados, absolutamente tudo. Não tiro uma vírgula do que te falei naquela quarta-feira de cinzas, saindo da lanchonete, fazendo o percurso contrário do carnaval no seu carro, você segurando minha mão e prevendo algo que ainda me era completamente alheio… Você se lembra? Eu, sim: comigo, com seu ex, sozinho ou com qualquer outra pessoa, você merece conjugar o verbinho do amor do jeito mais leve. Você merece ser muito feliz. 

 Isso que eu te disse naquela noite e eu acredito em cada palavra até hoje. Nada mudou. E eu sou grato demais por você ter me escolhido pra te dar esse amor e receber tanto em troca. O amor permanece aqui comigo, você sabe. Vai modificar um tantinho nos dias que vão chegar, mas tudo bem, faz parte. 

Até um dia!

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Belém, só vendo

Foto: Petterson Farias

Ruas bronzeadas com chuva pra toda gente.
Gente que transita entre verduras, peixes, mandingas e cores.
Cores que enfeitam a casa, a igreja, o palacete e toda a velha cidade.
Cidade de portais, estações e mangais que se esparramam entre rios.
Rios que não salgam os olhos, só matam a sede e nos dizem que este lugar é, sim, doce.
Doce como os dias de diversão no parque, após o Círio.
Círio que ata os nós de quem nasceu aqui, mas vive distante e expõe a fé de toda gente, pelas casas iluminadas, prédios abarrotados e pelas ruas bronzeadas de Santa Maria do Grão-Pará, a nossa amada Belém! 

Zuenir Ventura é que sempre esteve certo: “Há cidades brasileiras que só vendo. A capital do Pará é uma delas”.

Axé dos bons

Foto: Petterson Farias

Quando eu botei os pés na tua avenida pela primeira vez, onde, antes de mim,
tantos amores te fizeram dançar, pensei: vir de longe valeu, era nossa hora de amar

O corpo suou,
tua mão me alcançou,
tudo em mim tremeu,
o coração concordou

Pagode da Bahia, axé dos bons,
batuques, percussões e rebolados
mas meus pés do chão foi você quem tirou 

Barra, Ondina, Belém, Bahia,
Campo Grande, desejo imenso,
amor salvador, não vou mentir:
o coração amou

Filhos de Gandhy passaram,
os corpos cansaram,
o carnaval acabou
pipoca doce, só você e eu,
bloco pra pular a dois,
o coração cantou

Canção de amor sem fim,
sol de meio dia, Farol da Barra,
tesões e refrões, mil motivos pra ficar

Amor de carnaval, além das cinzas
o trio passou, o coração pediu
você ficou

Quando eu guardei as nossas fantasias, as ruas se calaram
e o amor cantou baixinho o ruído bom, mas doloroso, do fim
eu sabia: vir de longe valeu a pena, mas era nossa hora…
outros blocos pediam licença pra passar

 Fizemos nossa própria canção, pra cantar
 e fazer o corpo dançar sempre que lembrar
enquanto você ficou, o coração sorriu
dias de som, sol, oxentes e dendê
carnaval dos bons, pra nunca esquecer

Axé dos bons… E o coração,
consegues ouvir?
Ele continua a cantar!

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Esconda seu preconceito no armário

Arte: Herbert Loureiro

‘Fulano tá demorando sair do armário’
Quem decide a hora certa de se assumir é o próprio fulano, não você. Se é na adolescência ou na velhice, isso não é um problema seu. Só respeite o tempo dele!

‘Não tenho nada contra os gays, tenho até amigos que são, mas…’
Se você não tem nada contra algo, esse “mas” na sua frase nem deveria existir.

‘Eu aceito meu filho como ele é, só tenho medo do preconceito que ele pode sofrer lá fora’
Reflita se nesse seu discurso não há um preconceito velado, que você só não quer admitir e, por isso, fala do mundo “lá fora”. Sofrendo preconceito ou não, o apoio e o respeito da família são fundamentais, não negue isso a ele!

‘A opção sexual dela é o homossexualismo…’
Na verdade, ORIENTAÇÃO sexual, porque não optamos. Não há um momento na vida em que a gente escolhe direita ou esquerda, marca um X na opção ‘GAY’ como numa questão do ENEM. E HOMOSSEXUALIDADE, por gentileza. O sufixo ‘ismo’ denota doença, patologia. E nós não somos doentes!

‘Eu até aceito os gays, mas não precisa ser afetado, né?!’
O que você chama de afetação pode ser a essência da pessoa, o modo dela de estar no mundo. Sendo afeminado, tímido, séria, engraçado, envergonhada ou “caminhoneira”, cada um tem um jeito único de ser e ninguém precisa se encaixar em comportamentos pré-definidos. Pratiquemos a diversidade e a tolerância que a gente tanto prega.

‘Quer ser gay, que seja dentro de casa, não em público. Ainda mais perto de crianças’
Homossexualidade não se passa, não é doença contagiosa, que uma criança só de olhar vai “pegar”. Se fosse assim, eu teria crescido hétero, porque vivi toda minha infância e adolescência convivendo apenas com casais héteros. Me parece um pouco óbvio isso, não?

‘Agora em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, eu sou contra’
Então se case com uma pessoa do sexo oposto e siga sua vida.

‘Mas quem é o homem e quem é a mulher na relação de vocês?’
Espera! Deixa eu explicar mais uma vez: a relação é homossexual JUSTAMENTE porque é entre pessoas do MESMO sexo, logo, ou são dois homens ou são duas mulheres. Se houver um homem e uma mulher, a relação é heterossexual!

‘Nossa, pros gays agora tudo é ofensa!’
Pare de dizer pelo outro o que ele deve encarar como ofensa ou não. Só ele sabe o que sente; só ele sabe como é carregar nas costas o resultado de todas suas vivências, experiências e memórias. Se a pessoa te diz que teu comportamento em relação a ela não é legal, porque a constrange, ofende ou machuca, ouça, reveja, reflita, procure o diálogo, mude de comportamento ou se afaste. E isso vale pra tudo, hein?!

‘Não curto afeminados’
Frases como essa lidas aos montes em aplicativos gays não contribuem em nada pra nossa luta. Reduzir uma pessoa ao seu comportamento ‘afeminado’, além de te fechar pra trocas incríveis com alguém que é muito mais que isso, vai contra toda a tolerância que você mesmo pede. Suas preferências, direito seu. Mas que tal focar no que você gosta ao invés de focar no que não prefere? Mesmo entre os gays, há privilégios. Gay discreto, sem dúvida, sofre menos preconceitos que uma bicha espalhafatosa, mas ambos são dignos de respeito, portanto, não prive o veado afeminado desse direito. 

‘Ainda me acho preconceituoso, mas quero mudar’
Eu também, bora conversar?

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Respeita meu LUGAR DE FALA

Você só trata com desdém a expressão LUGAR DE FALA porque sempre foi ouvido. Porque sua voz sempre teve força e seus desejos ao alcance das mãos. Num país que tem o maior índice de assassinatos de homossexuais do mundo, o gay, muitas vezes, nem sequer tem tempo de reivindicar sua vez de falar. Numa sociedade em que mulheres são assediadas, agredidas e violentadas por seus maridos, namorados e até líderes espirituais, pra quem mesmo elas direcionam o seu grito se sabem que todo mundo finge não escutar?

LUGAR DE FALA é aquela necessidade que todos nós temos de, pelo menos uma vez na vida, falar por nós mesmos, sem a interferência de outras bocas, outras mãos, máscaras ou mordaças; aquele desejo de dizer pro mundo o que a gente vive e sente, mas ninguém entende; de falar sobre nossas faltas e dores pra quem nunca as sentiu na pele; de expor nossas cicatrizes sem medo de ouvir o outro dizer por mim que elas nunca existiram.

Se você diz que LUGAR DE FALA é um termo idiota, coisa de gente fresca, que não tolera quem pensa diferente, é porque você ainda não entendeu nada do que significa empatia; você não se propôs a fazer um esforço mínimo de se colocar no lugar de quem pede ajuda.

Lugar de Fala não é mimimi nem vitimismo, é oxigênio e salva vidas. E toda vez que você silencia a voz de alguém, desdenhando da sua coragem de gritar, reclamar e espernear, é como se, passando próximo a um cativeiro, você ouvisse alguém pedir socorro e ignorasse: você contribui pra perpetuação de uma realidade que oprime, aleija, castiga, prende e mata.

Tente, só por hoje, ouvir essa voz que vem do cativeiro e, em silêncio, escutar atentamente, depois perguntar o que essa pessoa está passando e o que ela precisa pra se livrar dessa situação. E se você não puder ajudar, não atrapalhe, aponte caminhos, recomende quem pode ajudar. Só por hoje não compactue com a dor do outro ignorando sua voz ou tentando falar mais alto que ele. Reconheça seus privilégios e entenda que por mais que o outro não seja igual a você, ele merece tão quanto as mesmas oportunidades de crescer, se desenvolver, ser livre e feliz.

E reflita aí:

Já pensou sua infância inteira baseada em brincadeiras e brinquedos escolhidos pelo teu irmão mais velho porque sua mãe nunca te deixou falar do que você gosta de brincar?

Você já se viu num país estrangeiro, morto de fome, sem conseguir se fazer entender, porque não dominava o idioma, e sonhou com alguém que pudesse, naquele momento, traduzir a sua fome pro outro?

Você já se aborreceu com aquele casal que veio visitar a sua casa e, sem te perguntar nada, quis decidir por você a melhor forma de criar os seus filhos?

Já se deparou com aquele marmanjo, no recreio da escola, ameaçando te bater e desejou seu irmão mais velho ali perto pra te defender?

Você já se chateou com aquela professora que pediu um trabalho gigante pro dia seguinte e, quando você tentou dizer que aquele prazo era impossível, ela riu dizendo que o prazo era suficiente sim?

Você já comeu o pior sabor de pizza do universo simplesmente porque decidiram pedi-lo sem te perguntar qual era o seu preferido?

Pois é. Dói quando te impedem de falar e diminuem a tua capacidade de escolher, se defender, de se proteger e de sobreviver, não é? Agora imagine como vivem minorias silenciadas por décadas e séculos. Imaginou? E ainda assim você acha correto e prudente homens continuarem falando pelas mulheres, héteros decidindo pelos homossexuais, brancos se expressando pelos negros e cristãos falando por todos de uma vez só?

Entenda de uma vez por todas: Lugar de Fala não quer calar a voz de ninguém, só quer projetar a voz de quem nunca falou ou de quem já tentou falar, mas você nunca escutou. Me soa justo e igualitário, pra você não? Vocês já decidiram demais por nós, agora deixa que a gente decida, deixe que da nossa vida a gente cuida.

A Dois

Foto: Renan Viana

Quando eu cheguei por aqui, eu mal acertava o giro da chave na porta, imagine o compasso de uma vida a dois. Tanto tesão e desacerto se embaraçando nessa nossa história que eu me assustava. Por onde começar? Você me disse pra eu não ter medo. E eu fui ficando até entender que a rotina, ao invés de rasurar sentimentos, pode aperfeiçoá-los, basta a gente querer.

Antes, amar, pra mim, eram só poros, saliva, abraços e desejo. Mas o amor era mais embaixo. Conjugação do espaço. Divisão do verbo. Lista de supermercado. Vinho barato. E nós. E eu só descobri isso quando você chegou, em cima da hora, pra morar debaixo do mesmo teto, entre euteamos, seriados, silêncios oportunos, receitas erradas e muito amor. Hoje, até a mesmice se pinta de uma cor diferente todo santo dia, só pra nos fazer feliz.

Casa Aberta

Foto: Petterson Farias

As pessoas demoram a acreditar nas rupturas. Já vi muitos amigos padecendo, por tentar levar às últimas consequências relações que poderiam acabar de forma amigável, só por achar que, por algum poder superespecial, conseguiriam reverter desgastes irremediáveis.

Não há nenhum mal em se afastar, em ser franco consigo mesmo e com o outro ao admitir que as coisas não se encaixam mais como antes. E outra: afastamentos e rupturas não precisam ter prazo de validade, pelo contrário. Algumas vezes, quando rompi com alguém, tempos depois, a conexão perdida foi retomada e de maneira ainda mais incrível. Isso porque o tempo que perderíamos somando ainda mais desgastes, aproveitamos para amadurecer; para dialogar com gente diferente; para oxigenar a alma com estímulos novos; e se dar conta, por fim, de que aquele relacionamento era sensacional, a gente é que não tava num bom momento para insistir.

“Ah, mas numa dessas, a pessoa pode ir e nunca mais voltar”. E quem tem o controle disso? Prendendo ou não, todo mundo tem o direito de ir e nunca mais voltar. Isso independe de mim. Entender isso é tirar uma tonelada de peso das costas e, mais leve, a gente consegue seguir. Algumas vezes, seguir junto por muito mais tempo, outras, até pra sempre, mas sem receio, sem neura, sem medo. Amigo, colega, namorado, esposa não são propriedades. Tem hora que sintoniza, pluga, casa, e é massa! Mas tem hora que não, paciência! E a nossa vida, não canso de repetir, é casa de portas abertas: as pessoas têm mais é que entrar e sair quando bem entender.