Respeita meu LUGAR DE FALA

Você só trata com desdém a expressão LUGAR DE FALA porque sempre foi ouvido. Porque sua voz sempre teve força e seus desejos ao alcance das mãos. Num país que tem o maior índice de assassinatos de homossexuais do mundo, o gay, muitas vezes, nem sequer tem tempo de reivindicar sua vez de falar. Numa sociedade em que mulheres são assediadas, agredidas e violentadas por seus maridos, namorados e até líderes espirituais, pra quem mesmo elas direcionam o seu grito se sabem que todo mundo finge não escutar?

LUGAR DE FALA é aquela necessidade que todos nós temos de, pelo menos uma vez na vida, falar por nós mesmos, sem a interferência de outras bocas, outras mãos, máscaras ou mordaças; aquele desejo de dizer pro mundo o que a gente vive e sente, mas ninguém entende; de falar sobre nossas faltas e dores pra quem nunca as sentiu na pele; de expor nossas cicatrizes sem medo de ouvir o outro dizer por mim que elas nunca existiram.

Se você diz que LUGAR DE FALA é um termo idiota, coisa de gente fresca, que não tolera quem pensa diferente, é porque você ainda não entendeu nada do que significa empatia; você não se propôs a fazer um esforço mínimo de se colocar no lugar de quem pede ajuda.

Lugar de Fala não é mimimi nem vitimismo, é oxigênio e salva vidas. E toda vez que você silencia a voz de alguém, desdenhando da sua coragem de gritar, reclamar e espernear, é como se, passando próximo a um cativeiro, você ouvisse alguém pedir socorro e ignorasse: você contribui pra perpetuação de uma realidade que oprime, aleija, castiga, prende e mata.

Tente, só por hoje, ouvir essa voz que vem do cativeiro e, em silêncio, escutar atentamente, depois perguntar o que essa pessoa está passando e o que ela precisa pra se livrar dessa situação. E se você não puder ajudar, não atrapalhe, aponte caminhos, recomende quem pode ajudar. Só por hoje não compactue com a dor do outro ignorando sua voz ou tentando falar mais alto que ele. Reconheça seus privilégios e entenda que por mais que o outro não seja igual a você, ele merece tão quanto as mesmas oportunidades de crescer, se desenvolver, ser livre e feliz.

E reflita aí:

Já pensou sua infância inteira baseada em brincadeiras e brinquedos escolhidos pelo teu irmão mais velho porque sua mãe nunca te deixou falar do que você gosta de brincar?

Você já se viu num país estrangeiro, morto de fome, sem conseguir se fazer entender, porque não dominava o idioma, e sonhou com alguém que pudesse, naquele momento, traduzir a sua fome pro outro?

Você já se aborreceu com aquele casal que veio visitar a sua casa e, sem te perguntar nada, quis decidir por você a melhor forma de criar os seus filhos?

Já se deparou com aquele marmanjo, no recreio da escola, ameaçando te bater e desejou seu irmão mais velho ali perto pra te defender?

Você já se chateou com aquela professora que pediu um trabalho gigante pro dia seguinte e, quando você tentou dizer que aquele prazo era impossível, ela riu dizendo que o prazo era suficiente sim?

Você já comeu o pior sabor de pizza do universo simplesmente porque decidiram pedi-lo sem te perguntar qual era o seu preferido?

Pois é. Dói quando te impedem de falar e diminuem a tua capacidade de escolher, se defender, de se proteger e de sobreviver, não é? Agora imagine como vivem minorias silenciadas por décadas e séculos. Imaginou? E ainda assim você acha correto e prudente homens continuarem falando pelas mulheres, héteros decidindo pelos homossexuais, brancos se expressando pelos negros e cristãos falando por todos de uma vez só?

Entenda de uma vez por todas: Lugar de Fala não quer calar a voz de ninguém, só quer projetar a voz de quem nunca falou ou de quem já tentou falar, mas você nunca escutou. Me soa justo e igualitário, pra você não? Vocês já decidiram demais por nós, agora deixa que a gente decida, deixe que da nossa vida a gente cuida.

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