Do Amigo

Foto: Petterson Farias

Eu já desejei que te batessem na rua, só pra tu aprenderes a falar menos, não vou longe, ontem mesmo. Andamos juntos no escuro, agarrei tua mão gelada e corri por ruas tortuosas num final de semana de praia, sim, com altas doses etílicas na cabeça. Depois de um feriado libertino, te acordei aos gritos perguntando pela posse da presidente, mas ainda era Dia de Finados. Ri de ti caindo da rede. Dividi a minha rede contigo. Caí contigo da rede!

Eu te encontrei quando todo mundo dizia que não se consegue ter amigos no trabalho e li várias mensagens tuas no whatsapp imitando a tua voz. Topei ver filme ruim no cinema só pra ter tua companhia e constatei que viagem sem ti não é viagem boa. Falei pra não te meteres com gente errada e que pegar aquele escroto era cilada. Claro que eu também já quis te matar, por pegar antes de mim todos os caras que eu desejei.

Corrigi teu português pífio e te dei conselhos, como se deles eu também não precisasse. Quis te namorar, só pra te provar que és incrível demais pra continuar solteira. Agradeci quando, na falta dos grandes amores, foste a melhor companhia e acalmou meu coração, porra, por que a gente nunca transou? Talvez nem saibas disso, mas uma vez pedi dinheiro emprestado pra não faltar o teu aniversário. Massageei tuas costas pra dor da ressaca passar rápido, vomitei teu sítio e, muito bêbado, joguei um copo de água gelada na tua cara. Mas também passei meses planejando o melhor presente do mundo pra te dar, só pra te ver feliz. Falei de ti pros meus amigos com tanto entusiasmo que eles desejaram ser teus amigos também.

Já confundi amor com amizade e quase te perdi. Eu ouvi teu choro de madrugada, isso é hora, mana? Odiei os machos que te sacanearam e te abracei apertado no meio da balada quando a nossa música preferida tocou. Já atravessamos Minas Gerais com R$ 1,50 no bolso. Mas levamos o hotel abaixo quando nosso dinheiro caiu na conta. Falei tão bem de ti pra minha mãe, que ela achou que eu tava te comendo. Sim, chorei escondido no banheiro quando tu me chamaste pra ser padrinho do teu casamento. Chorei no avião, chorei no altar, chorei te abraçando. Que noite incrível! Falei pra ti que era gay e só me abraçaste, dizendo que isso não mudava absolutamente nada. Tu dividiste tua comida e a tua casa comigo quando eu não sabia o que era futuro e foi além ao me pedir perdão, quando eu achei que nossas vidas nem mais se cruzariam.

As pessoas se constrangeram com teus risos escandalosos, eu fui lá e ri contigo. Perdi amizades por tua causa e que vontade que eu tive de meter a mão na tua cara, mas a varanda da minha casa sempre foi mais legal contigo nela. Que não nos ouçam, mas um dia deixei de ir pra festa, só porque disseste que não ia. Derrubei a TV do teu quarto, com medo dos teus gatos. Abriste a tua casa pra mim e nem brigaste comigo quando deixei a porra da garrafa de água encher até transbordar, molhando a cozinha inteira. Tu me confiaste a senha das tuas redes sociais e do teu cartão de crédito, eu te confiei meus podres amores, minhas carências e meus egoísmos.

Tu foste porta de entrada em lugares que só em sonhos eu imaginava pisar. A gente se abraçou chorando no réveillon depois de meses chateados um com o outro e te reconheceram num aplicativo de pegação depois que te viram no meu snapchat. Tropeçamos juntos entre cervejas, moto-táxis, gritos e alegrias no melhor carnaval do mundo. Pensamos diferentes, mas nunca tentamos anular as preferências um do outro. Foste a primeira pessoa que corri pra contar quando comecei a namorar. Chorei quando nos despedimos e até deixei de ir naquele restaurante que só íamos juntos. Eu fui a pior pessoa durante o teu luto e, mesmo assim, continuas sendo o melhor contraponto dos meus exageros.

Tentaste manter em segredo, mas eu descobri quem tu estavas pegando escondido, seu sacana! Eu te confidenciei segredos, sem a gente nunca nem ter se visto pessoalmente. Teu telefone é o único que sei de cabeça até hoje. Li livros, ouvi canções, escrevi textos e só pensei em ti. Eu fiz uma piada pesada em público e só tu entendeste. Como gargalhamos! E no silêncio, refleti sobre o prazer que é ter alguém em quem confiar, mesmo que a gente nunca tenha se dito isso.

Ouvi teus desabafos numa noite gelada do Chile e dividi uma casa contigo e mais oito na Ilha do Marajó. Guardo até hoje nossos melhores dias na faculdade, no quintal da tua casa, nos aniversários da tua família. Eu abracei teu filho com todo amor do mundo. Antecipei teus gestos, desmenti teus discursos e, olhando nos teus olhos, falei que pra mim não precisavas inventar nada, eu sabia de tudo! A dor e a delícia de se conhecer alguém até do avesso! Amaldiçoei o mundo quando rompemos a amizade, mas sei que o que ficou é o que importa. Entendi que somos melhores quando distantes e isso não invalida em nada o que sentimos um pelo outro. Chorei tua morte durante uma semana, como se um pedacinho de mim estivesse indo ali, enterrado contigo. Mas agradeço todos os dias por teres cruzado o meu caminho!

Hoje, tu transitas neste texto, cheio de histórias e memórias que têm feito de mim o que sou. Tu sabes que estás aqui, não preciso te dizer isso. O que talvez tu não saibas é que te ter por perto ainda me dá sossego e me torna um sujeitinho menos ranzinza e muito mais feliz.

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Quando

TD - Quando
Foto: Petterson Farias

Sabe quando você, no trânsito, rouba a minha mão e pousa de leve na sua perna, e eu te olho sorrindo em silêncio? Ou mesmo quando você repete suas velhas histórias, do mesmo jeitinho, sem tirar nem pôr uma vírgula, e eu manifesto surpresa pra não te desapontar? E quando você me liga de madrugada morrendo de saudade, mesmo eu sabendo que você queria estar dormindo desde às dez? Em todas essas vezes, eu te vejo dizer sem palavras do amor que atravessa teu peito aí e que, não coincidentemente, marca o meu aqui também.

Quando as suas frases de efeito saem em inglês e eu morro de rir; quando você briga com alguém e é pra mim que liga chorando arrependido e eu não sossego até te fazer melhor; quando você desce a ladeira e me manda vídeo do mar com a nossa música ao fundo e eu me sinto como se estivesse do seu lado, sabe? Quando estamos juntos e acordamos na mesma hora sem combinar, antes do despertador tocar, só pra namorar um pouquinho mais. Em todas essas situações, eu me surpreendo sussurrando baixinho gratidão pelas coisas que eu só experimentei com você.

Quando seus olhos me comem despretensiosamente e eu finjo não vê-los. Quando você me enumera todas as suas incertezas e eu destruo uma a uma, mas sobretudo, quando é você que me faz acreditar. Quando você me liga com a voz rouca de sono só pra dizer que me ama e eu te respondo ainda com os olhos fechados que te amo mais. Quando você declara seu ciúme com jeitinho e eu, ao invés de ficar com raiva, tenho vontade de te esmagar com tanto afeto. Nesses instantes, eu te abraço com todas as forças que um sentimento bom pode ter.

Quando você dá aquela risada engraçada e demorada por causa de algo que eu falei ou quando você me pede desculpas, eu me encho de orgulho pelo homem que você é. Quando você me manda um beijo escondido, achando que ninguém vai notar e a gente cai na gargalhada, morrendo de vergonha, porque, sim, alguém notou, tudo em mim sorri. Quando eu chamo você de amor na frente de estranhos e você se apavora, fazendo aquela cara de horror, eu até me esqueço do quão difícil é amar como a gente ama, porque com você tudo parece mais fácil.

Quando eu estou longe e você dorme com a minha camisa sem eu saber e eu acordo querendo ainda mais o seu abraço. Quando você, sem pudor, deixa seu cheiro em mim. Quando, involuntariamente, seus olhos fecham e o seu sorriso fica maior que o mundo. Quando você me sugere todos os sonhos e num abraço, me lembra de que eu não poderia ter alguém melhor do meu lado. Ou mesmo quando você me troca pela televisão e eu ronco deitado no seu peito. Em todos esses momentos, eu me sinto na obrigação de te devolver as coisas boas que espalhas sem dó nem piedade pela minha vida.

Quando você me leva pra ver o mar e, mesmo com frio, mergulha comigo; quando eu saio do quarto, desço as escadas, seguindo o rastro do seu assobio que ocupa a casa inteira, e uma alegria sem fim me invade; quando eu te escrevo num dia qualquer e você diz que ama as minhas palavras; ou quando você faz questão de fazer o nosso café da manhã e eu te assisto cozinhar; quando a gente se encontra no aeroporto e dá aquele abraço demorado, provando ao mundo, do nosso jeito, que todo amor é bom, sim, não importa o gênero; e até quando a gente ri lembrando que um dos nossos temas de namoro é um sertanejo; tudo em mim inspira leveza, paixão e certeza.

Quando você me agradece baixinho no ouvido por coisas que eu faria de novo com o maior prazer. Quando seus amigos me reiteram em segredo o amor que você me declara. Quando você pressiona a língua contra o céu da boca, como deve estar fazendo agora pra não chorar, e chora mesmo assim. Quando eu me dou conta de que tudo isso está só no começo, parece que meu coração, depois de tanto agonizar, por sua causa sorri sem freio e volta a viver sem medo. Quando você, diariamente, teima em estar na minha vida, mesmo a quilômetros de distância, eu te juro que eu me sinto o cara mais feliz do mundo.