Hoje

Hoje
Foto: Fabíola Lourenço

Teu domingo é a ponta do lençol estirada no cantinho do sossego, espreguiçando entre travesseiros pelo chão de um quarto escuro às dez da manhã. É o celular no silencioso, pro mundo lá fora não incomodar e o café da manhã em câmera lenta, pois hoje os minutos podem esperar.

É o sambinha tocando na TV e no rádio, acusando sentimentos esquecidos. É o livro aberto e o parágrafo que leste mais de três vezes pra resgatar a concentração e o compromisso que desmarcaste numa tentativa de adiar o tédio das relações inevitáveis.

Teu domingo são as horas de desleixo, pecado capital e nostalgia. São minhas marcas que, ainda ontem, deixei na tua cama, na tua vida, e que em vão vais passar a semana inteira tentando apagar.

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Previsíveis

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Foto: Petterson Farias

Vais então perceber que tudo foi desespero e que aquilo que um dia chamaste de teu, nunca nem te pertenceu. Vais cair em si e sair por aí dando conta do que deixaste pra trás, só pra favorecer um sentimento que no fundo não passou de vaidade.

Vais te arrepender baixinho, com o coração amargo, esmurrando por dentro todas as cicatrizes que insistirão em lembrar o que te feriu. Vais olhar pro lado, com medo de ser notado e se escorar pelos cantos, tratando tuas perdas como sintomas de uma doença letal.

E não vais pedir ajuda, porque teu orgulho vai persistir naquela teimosia própria dos que sofrem só. Mas logo vais arranjar um culpado, alguém que leve tua culpa pra bem longe e te amenize a vergonha por acreditar em algo tão vil. E no final ainda vais dizer aos quatro cantos que eu não te avisei.