Remetentes

 
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Decidiu abrir o baú para desempoeirar algumas lembranças. Releu sentimentos em forma de cartas e palavras amassadas. E tateou todo o passado impresso ali nos papéis. Dos textos antigos, tirou a saudade e dos envelopes endereçados à casa antiga, descobriu o que a memória há anos já tinha levado para debaixo do tapete. Reviu pessoas e o significado que cada uma delas já teve em sua vida. Agradeceu por aquelas que resistiram à corrosão dos dias e aqui ficaram. Soube compreender até mesmo os antagonismos do tempo, que quase sempre leva também o que parece bom e prende em nós o que não faz tão bem assim. Engoliu o riso e ensaiou o choro, porque esparramadas ali também estavam declarações inteiras de relações pela metade e amanhãs que não chegaram a ver o sol e foi obrigado a admitir que, às vezes, grandes amores também voltam atrás.
 

Age!

Foto: Fabíola Lourenço
Foto: Fabíola Lourenço

Faz assim, aciona teus instintos, agride teus pavores, pega o telefone e disca o número que sempre soubeste de cor, diz que foi engano, não a ligação, mas todo esse tempo que vocês perderam, sofrendo calados e amando tão separados. Distorce a realidade, torce o braço, diz à distância que ela é menor do que imagina e quando a música te fizer lembrar, declara isso. Entorpece teus sonhos com as atitudes que no fundo tu sempre quiseste tomar. Proíbe o comodismo de entrar e fala, meu querido, porque sentir em silêncio é letal.

Compra as passagens, reserva o hotel, foge pra bem longe, entra sem bater e só sai de lá quando não mais quiser, mesmo que todo mundo esteja olhando. Dedica o verso, escreve o rosto dele num pedaço de papel, mas apaga os defeitos, colore, pelo menos uma vez, somente o que ele tem de bom. Vai na casa, escancara a porta, pula a janela e culpa a saudade, quando te flagrarem numa dessas situações constrangedoras. Planeja um passeio pro sábado, convida pro cinema no domingo e na quarta-feira surpreende a rotina massacrante com as palavras que só tu, na hora, vais saber escolher.

Desembrulha os sentimentos, tira o amor de trás das cortinas e faz pulsar todos esses instintos tortos que cada um de nós carregamos dentro de si, sobretudo quando amamos. Faz tudo isso e um pouco mais. Mas faz mesmo, que, uma hora, o teu orgulho desiste!