Agora

 

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‘As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas.
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras, irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir’.

Carlos Drummond de Andrade

 

Hoje a saudade é qualquer coisa vagando entre a música no volume baixo e um sentimento amargo. Tem o tamanho do nosso quarto escuro e sujo. Feito sob medida para o vazio instalado entre teu arrependimento e o meu telefone mudo.

Hoje, meu amor, a saudade é qualquer coisa pairando entre mil tentivas de te resistir. É o nosso presente apressadinho, que virou passado antes do tempo e a gente nem viu. Serão sempre as letras daquela história que deixamos pela metade e que engavetamos antes de alguém ler.

Mas hoje a saudade, embora insistente, morre assim lentamente. Enquanto a vida teima em não parar, ela pega outra rua, segue teus passos que vão longe e toma outra direção.

Hoje, a saudade dorme embalada por todas aquelas palavras que eu nunca disse e mesmo assim tu deduziste. Mas só por hoje. Amanhã, eu espero que ela não volte mais.

 

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Mãe

MãeNão foi uma nem duas vezes que ouvi minha mãe reclamar o fato de eu nunca ter escrito algo sobre ela e o nosso amor por aí. A verdade é que desde que descobri nos textos a melhor forma de expressar meus grandes amores, paixões e relacionamentos, sobre quase tudo eu já escrevi, mas pela minha escrita, o nosso amor nunca passou. Já culpei meu signo, minha criação e até transferi à personalidade e ao medo os motivos por tamanha dívida com quem sempre significou infinito amor pra mim. E se você me lê com certa frequência, vai se lembrar das inúmeras vezes em que já confessei aqui a minha falta de tato com as palavras ditas e os sentimentos falados. Mas confesso, apesar do esforço, nunca soube dizer. Nunca fiz uma declaração de amor pra minha mãe. Juro, não foi por falta de vontade. O coração já ensaiou se rasgar em várias ocasiões e sobre as vezes em que quis verbalizar e engasguei, eu já nem conto mais nos dedos. Temo, inclusive, que esse texto não se conclua, assim como outros tantos. De qualquer forma, vão nele alguns 20 e poucos anos de atraso e muito do que eu nunca soube dizer.

Lembro que, há uma década, quis deixar o quarto ao lado do dela pra estudar na capital, morar sozinho e brincar de gente grande no ápice dos meus ainda não completados 18 anos. Ela não hesitou em acatar minha decisão, mas sei bem como deixei aqueles olhos, aquele colo e todos aqueles cuidados que sempre foram meus. E de todas as dificuldades que enfrentei no começo, deixá-la só foi a mais doída. Na mesma época, meu irmão do meio foi morar com meu pai e sozinha ela ficou com a casa grande, dois quartos vazios e uma mesa de jantar só pra um. Eu sobrevivia em Belém num quarto de fundos, com poucos reais pra pagar cursinho, transporte, comida e pro que mais desse. Nunca dava! E mesmo assim, minha aflição maior continuava sendo minha mãe lá. Não sei se pela aparência de pouca idade ou pela sua ingenuidade, sempre carreguei comigo esse dever de cuidá-la, de ser filho, mas também ser pai, zelando pra que nada de ruim acontecesse a ela. E como a distância dificultou o processo. Foi terrível! Mas acho que soubemos nos virar.

Meses depois, eu passava na universidade e escolhia ficar e minha mãe ao saber da minha vontade, decidia que sonho meu, seria sonho dela também. Largou tudo o que tinha e deixando pra trás os familiares, as raízes, a casa e a vida de sempre, veio me acompanhar. Os anos se foram e aquelas dificuldades antigas também, mas é ao meu lado que ela ainda segue caminhando. Hoje, quando, volta e meia, tento entender a dimensão de atitudes como aquela de outrora, que acabaram por mudar tudo e significar tanto, no alto dos meus egoísmos compreendo cada vez menos. E se não entendo, tento retribuir, mesmo que em meio aos tropeços. Sempre enxerguei na gratidão um bom pretexto pra brincar de amar.

Entretanto, se aqui não cabe falar de todas as outras situações em que minha mãe foi a melhor mãe, cabe dizer que em todas as vezes em que nos calamos e deixamos a oportunidade de falar do amor escorrer pelos abraços, olhares e almoços em silêncio, eu o vi se aproximar por outros ângulos, manifestar-se em outras línguas e fazer-se forte como nenhum outro. Porque não há dúvidas. É ela, sim, quem mais vai entender minha mudez, meu individualismo crônico, meu amor não verbal, meu egoísmo e minha cama por arrumar. É quem vai me lembrar de onde vim, porque me fiz assim e porque eu nunca vou conseguir rir baixo. É quem vai me amar nos gestos, na roupa passada e no café-da-manhã que ela faz questão de deixar pronto antes de eu acordar.

Acho que nunca vou saber de onde é que vem tanto zelo com o quarto que não é seu; o carinho com os amigos que não são seus; a preocupação com o stress do trabalho que também não é seu. Mas não é porque sigo sem entender que deixaria de um dia te dizer o quanto sinto e o quanto, mesmo calado, amo tão forte. Obrigado pelos genes da alegria, pelo jeito leve de viver que escorre pelas veias e que, sei bem, também veio daí. Sua felicidade me diz respeito, suas pequenas realizações diárias, como aquelas de ter a comida elogiada, são da minha alçada e no que depender de mim, seu sorriso também vai continuar sendo culpa minha. Se pouco aparento, então me deixe dizer aqui: quando quis ser um homem do bem e alguém melhor foi por achar que sou mínimo diante de tanto amor, cuidado e confiança que a senhora sempre depositou em mim. Talvez as palavras permaneçam engasgadas por mais um bom tempo e os sentimentos ainda vaguem, intangíveis que só eles, pelos corredores da casa e dos dias, mas não esqueça nunca: meu amor é todo seu!

Feliz dia. ❤

 

 

Interurbano

interurbano
Foto: Fabíola Lourenço

– Tá achando ruim por que mesmo se entre nós já não há mais nada?
– porque sim, ora…
– penso que se incomodar é indício;
– e o que você quer dizer com isso?
– que alguma coisa ficou mal resolvida
– mal resolv…
– você ainda sente algo?
– CLARO, CARALHO!
– também sinto.
– eu sempre soube.
– e por que tão separados?
– cabeça confusa.
– mas penso que dois serão sempre mais fortes que um.
– posso chorar?
– não sem antes me responder…
– eu digo sim!
– assunto encerrado?
– sim.
– amor recomeçado?
– também.