Mútuos

 

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‘- Eu vou embora.
– Lamento muito.
– É irrelevante. Lamenta o quê?
– Tudo.
– Por que não me contou antes?
– Covardia.
– É por ela ter sucesso?
– Não. Porque ela não precisa de mim’.

Closer – Perto Demais

 

Dia desses, andei mudando de ideia sobre um bando de coisas, uma delas é o amor. Sim, o amor. E se lhe parecer piegas demais esse tema, peço que pare. Juro, não vale a pena continuar. Mas se, assim como eu, você também pensa algo a respeito dele, por favor, fique.

Quanto ao que eu ia dizendo, seria leviano da minha parte fingir que tudo foi mera observação, estudo apurado, com olhar curioso de quem assiste de fora. Porque não foi, sabe como é… Empirismo é coisa que não se controla. Quando a gente para pra pensar, já viveu. Pois é, e eu vivi. Quer dizer, não vivi. Enfim, espero que entenda.

Tempos atrás, vivi às avessas algumas modalidades de sentimentos desmedidos, paixões bobas e carências agoniadas. Por meses a fio, procurei emergir de algum vazio, a partir de tentativas e desacertos que só me fizeram afundar ainda mais. É, e chamei isso de amor. Era parecido, acredite! Entre distorções e pouco foco, achei que cabia definir tudo assim.

E meus planos só não eram mais equivocados que a visão deturpada. A ligação repentina, o livro emprestado, a viagem no meio do ano e mais um futuro bom à sua escolha. A tudo isso eu me prestava, mas ok, quem nunca, não é? E se você respondeu nunca, eu te digo como a coisa funcionava.

Ah, e antes que eu me esqueça, quanto ao julgamento dessas minhas atitudes, se elas soam mais como ridículas, penosas ou abomináveis, eu deixo por conta de vocês, que, óbvio, ou já estiveram no meu lugar ou já ouviram uma história parecida. Recado dado, voltemos!

Depois das primeiras horas, quando a luz tímida ainda ensaiava as primeiras projeções e os gestos ainda se atropelavam na escuridão, era como se, de algum modo, eu já me sentisse no direito de depositar em uma nova possibilidade a validação de qualquer felicidade que eu pudesse sentir. Parecia-me impossível ser assim tão só. Achava que somente a partir de dois pedaços era que se constituía qualquer realização por inteiro.

Veja bem, não era um oferecendo algo bom para a história dos dois. Era eu esperando a totalidade do outro, meio que acomodado com a sensação de não ter algo a dar, mas com muita necessidade de receber em troca. E eu não queria pura e simplesmente, era muito mais, digamos que se tratasse de uma exigência travestida de amor bom, sem cobranças, sem esperas; de alguém feito de expectativas, ansiedades e inseguranças, querendo sempre provar o contrário; digamos que se tratasse de uma grande mentira.

Em contrapartida, quanto mais pensava assim, menos eu me preenchia. E por muito tempo, ainda faria da necessidade de ter alguém, resolução única para viver feliz, sem saber que a verdade era outra completamente diferente. Mas antes que alguém pense no trágico, adianto que não foi preciso chegar ao extremo para, como diria a música, mudar algumas certezas de lugar. Estive quase lá, mas parei antes do fim.

Não cometi loucuras nem fugi de casa. Não me perdi nos vícios nem morri de amor. Mas senti como se doer fosse ofício. Desejei como se disso dependesse minha própria vida. E nos intervalos, entre uma vontade e outra, eu me condenei. Até que passou. Até que concluí.

E para que eu não me estenda ainda mais, digo logo: hoje, idealizo o amor como partes que se acompanham. Vá lá que se precisem, mas que, sobretudo, se independam. Mesmo que caminhem para uma única direção, que continuem sendo dois. Que não necessitem, mas que o empenho consista em se complementar. Não sobrevive qualquer relação cujo par se desnivele, em que um esteja por cima e o outro por baixo, por fora, pelos cantos, sofrendo pelas beiradas, morrendo pelas tabelas. Os tempos de escravidão já não se foram? Pois é, então acredite na abolição. Por que ser dependência, prisão e sufoco se você pode ser a certeza na vida de alguém?

 

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2 comentários sobre “Mútuos

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