Mútuos

 

tumblr_myf6ibWP7W1rcfg5lo1_500

 

‘- Eu vou embora.
– Lamento muito.
– É irrelevante. Lamenta o quê?
– Tudo.
– Por que não me contou antes?
– Covardia.
– É por ela ter sucesso?
– Não. Porque ela não precisa de mim’.

Closer – Perto Demais

 

Dia desses, andei mudando de ideia sobre um bando de coisas, uma delas é o amor. Sim, o amor. E se lhe parecer piegas demais esse tema, peço que pare. Juro, não vale a pena continuar. Mas se, assim como eu, você também pensa algo a respeito dele, por favor, fique.

Quanto ao que eu ia dizendo, seria leviano da minha parte fingir que tudo foi mera observação, estudo apurado, com olhar curioso de quem assiste de fora. Porque não foi, sabe como é… Empirismo é coisa que não se controla. Quando a gente para pra pensar, já viveu. Pois é, e eu vivi. Quer dizer, não vivi. Enfim, espero que entenda.

Tempos atrás, vivi às avessas algumas modalidades de sentimentos desmedidos, paixões bobas e carências agoniadas. Por meses a fio, procurei emergir de algum vazio, a partir de tentativas e desacertos que só me fizeram afundar ainda mais. É, e chamei isso de amor. Era parecido, acredite! Entre distorções e pouco foco, achei que cabia definir tudo assim.

E meus planos só não eram mais equivocados que a visão deturpada. A ligação repentina, o livro emprestado, a viagem no meio do ano e mais um futuro bom à sua escolha. A tudo isso eu me prestava, mas ok, quem nunca, não é? E se você respondeu nunca, eu te digo como a coisa funcionava.

Ah, e antes que eu me esqueça, quanto ao julgamento dessas minhas atitudes, se elas soam mais como ridículas, penosas ou abomináveis, eu deixo por conta de vocês, que, óbvio, ou já estiveram no meu lugar ou já ouviram uma história parecida. Recado dado, voltemos!

Depois das primeiras horas, quando a luz tímida ainda ensaiava as primeiras projeções e os gestos ainda se atropelavam na escuridão, era como se, de algum modo, eu já me sentisse no direito de depositar em uma nova possibilidade a validação de qualquer felicidade que eu pudesse sentir. Parecia-me impossível ser assim tão só. Achava que somente a partir de dois pedaços era que se constituía qualquer realização por inteiro.

Veja bem, não era um oferecendo algo bom para a história dos dois. Era eu esperando a totalidade do outro, meio que acomodado com a sensação de não ter algo a dar, mas com muita necessidade de receber em troca. E eu não queria pura e simplesmente, era muito mais, digamos que se tratasse de uma exigência travestida de amor bom, sem cobranças, sem esperas; de alguém feito de expectativas, ansiedades e inseguranças, querendo sempre provar o contrário; digamos que se tratasse de uma grande mentira.

Em contrapartida, quanto mais pensava assim, menos eu me preenchia. E por muito tempo, ainda faria da necessidade de ter alguém, resolução única para viver feliz, sem saber que a verdade era outra completamente diferente. Mas antes que alguém pense no trágico, adianto que não foi preciso chegar ao extremo para, como diria a música, mudar algumas certezas de lugar. Estive quase lá, mas parei antes do fim.

Não cometi loucuras nem fugi de casa. Não me perdi nos vícios nem morri de amor. Mas senti como se doer fosse ofício. Desejei como se disso dependesse minha própria vida. E nos intervalos, entre uma vontade e outra, eu me condenei. Até que passou. Até que concluí.

E para que eu não me estenda ainda mais, digo logo: hoje, idealizo o amor como partes que se acompanham. Vá lá que se precisem, mas que, sobretudo, se independam. Mesmo que caminhem para uma única direção, que continuem sendo dois. Que não necessitem, mas que o empenho consista em se complementar. Não sobrevive qualquer relação cujo par se desnivele, em que um esteja por cima e o outro por baixo, por fora, pelos cantos, sofrendo pelas beiradas, morrendo pelas tabelas. Os tempos de escravidão já não se foram? Pois é, então acredite na abolição. Por que ser dependência, prisão e sufoco se você pode ser a certeza na vida de alguém?

 

Anúncios

A Sacudidora de Palavras

 

foto

‘Continuava apertando o livro.
Continuava desesperadamente
agarrada às palavras
que lhe tinham salvado a vida’.

A Menina que Roubava Livros 

 

Colocou os pés no chão logo cedo e pôde sentir o frio do medo, congelando a barriga, a cabeça e os sentimentos. Teve receio de, mais uma vez, deixar qualquer sentença pela metade, ao ver o tempo se aproximar, decidido a lhe arrancar as frestas, mais estreitas que as oportunidades da confissão.

Ela levava maior jeito para sentir, mas como lhe assustava o pavor de ter que dizer. Quase sempre se interrompia e regressava, por não achar a melhor forma, pela certeza de quase nunca acertar o fim. Batia os dedinhos em cada letra, como se transitar entre as palavras fosse um fardo, de uma dificuldade indescritível, para ser mais precisamente redundante. O cômodo parecia apertado demais para uma pessoa e tantos termos. Impossível andar sem tropeçar.

Durante a manhã inteira, andou pelo quarto procurando um jeito, desarrumando as gavetas, os trejeitos e os pensamentos. Na cama sobravam os espaços que tanto lhe faziam falta nas horas de silêncio e muito por dizer, mas estava disposta a não perder mais uma vez para a mudez. Entre idas e vindas, passos lentos, movimentos agonizantes e vozes sufocadas, pareceu encontrar o atalho.

Correndo as mãos, os braços e suas intenções pela escrivaninha, observou minuciosamente o comportamento das palavras. Com o encantamento estrangeiro, de quem há pouco chegou, manifestou surpresa inquietação ao ver cada um delas dizer tanto sem emitir nenhum som, apenas pousando ali, enfileiradas, linha por linha, desenhadas no papel. Pediu para as frases entrar. Com toda licença, começou a escrever. Resolveu que daquela forma, elas também diriam muito. Dali em diante, soltas entre outras margens e presas às suas páginas, elas preencheriam tudo.