Esboços

 

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Se escrever for toda essa dificuldade
sufoco, tensão e castigo
obrigação por começar
medo de não terminar
pois as palavras que se danem
que cacem elas outros rumos
façam-me todas elas o favor
de me deixar em paz

E se for pela agonia de ver
essas folhas em branco
eu nem me bato
pois que sem cor elas continuem
que fique esse texto pela metade
eu é que não sou obrigado

 

Minha reza

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Foto: Petterson Farias

Livrai-me dessa gente alheia, assim muito autossuficiente, bem como dos indiferentes, esses que quase sempre têm preguiça de sentir; dos que por si só não se movimentam; daqueles que me partem ao meio, mas em troca não me oferecem nada.

Livrai-me dessa gente que sai de casa sem seus “bom dia”, vírgulas, vocativos e plurais; dos lentos em caixas eletrônicos; daqueles críticos ao extremo; dos mal educados no trânsito; dos que me pedem emprestado o que nunca vão devolver; sobretudo, dos relacionamentos e sujeitos rasos, que fazem questão de me puxar pra superfície, mesmo quando todas as possibilidades e vontades me querem mergulhar.

Sim, dos amores pela metade também; das religiões intolerantes, pelo amor de Deus; das poltronas apertadas de avião; das comidas sem sal; da insônia constante; das conversas longas pelo celular; do receio de ouvir minha própria voz; das canções que me desnudam (mentira, dessas não); dos trabalhos que só rendem dinheiro e pouco prazer; de ter que dar satisfação ou a mesma resposta mais de uma vez, por favor!

Livrai-me das roupas e sentimentos que não me cabem mais; dessas relações que me roubam o silêncio; desse amontoado de ideias inertes que nunca ganham vida; assim como de todas as minhas abstinências que fazem tudo isso ser maior do que de fato é, amém!

 

Me diz!

 

 

‘Eu sonhei que estava exatamente aqui,
olhando pra você.

Olhando pra você exatamente aqui.
Pronto para despertar.
Perto mesmo de explodir’.
Marcelo Jeneci

 

– Tu gostas mais dela ou do sossego que ela te traz? – outro dia, alguém me perguntou. – Sim, essa moça aí que tem te arrancado o fôlego e todos teus dias.

– Nunca pensei assim, como duas coisas dissociadas.

– É por conta do jeitinho que ela tem de falar ou pela agonia e ansiedade que ela te faz esquecer?

– Mas que ideia!

– Ok, ok – esse alguém insistiu. – É o sorriso que ela te arranca ou a causa vem dessas tuas carências que ela faz sumir?

– Eu lá sei – categórico, respondi.

– Vamos lá, rapaz, esse amor todo aí, é por tudo aquilo que a gente vê por fora ou pelo que tem do lado de dentro?

– Terceira opção, por favor!

– E esse bando de pensamentos contaminados com os planos dela, é por todas as vezes em que ela se preocupa com teu dia ou pelas outras em que ela chega sem nada dizer só pra te fazer companhia?

– Ora, por que tantas perguntas? Se faz tão bem por que questionar? Que horrível, essa coisa de achar que as respostas são sempre tão importantes.

Eu só vou sentindo e deixando levar. Pra que saber no que tudo isso vai dar?

 

(Tem ajudinha do Lucas Schwantes nesse texto)