Um só coração

 

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É bem provável que a genética não tenha me poupado e todo esse meu silêncio, esse meu gostar quieto, sem grito e sem barulho, eu tenha herdado da minha avó e do meu pai. Nunca foi bom ser assim, coisa terrível é amar alguém só pra si, por puro medo e vergonha de compartilhar. Mas quis a vida, que ao invés de colocar a culpa na hereditariedade, eu desse um jeito e pegasse um atalho e, assim, de outro jeito, eu falasse dos amores que, em todo tempo, mereceram minhas palavras, minha escrita e minha inspiração.

Nunca soube, exatamente, de que matéria é feita essa relação de pai e filho. Se vem com a gente ou se é nossa obrigação construí-la enquanto os dias envelhecem. Se vem da presença constante ou se independe das distâncias. Vai saber…

Mas entre ele e eu, se faltaram as palavras, a franqueza dos atos nunca deixou de suprir. E foi quando ele abriu mão dos seus sonhos solitários, pra viver em prol do que um dia eu viria a sonhar, que tive a certeza. Foi quando, mesmo sem a referência paterna, ele se dispôs a aprender sozinho esse papel de melhor pai do mundo. E como foi absurdamente preciso. Importante, incondicional e certeiro.

Hoje, não há possibilidade alguma de eu enxergar qualquer parte de mim ou qualquer pedaço da minha história, sem que eu veja meu pai. Todas as vezes em que fui pequeno diante das pessoas e menor ainda diante das circunstâncias, foi vital a certeza de que ele estava por perto.

Quando saí de casa e carreguei o sonho de escrever sozinho outra história. Quando pensei em desistir e ser só mais um. Quando mudei a rota e fui o oposto do que todos (e até ele) esperavam. Quando tive nas mãos outra realidade. Foi ele que não arredou o pé e disse sim.

E se as perguntas sem respostas ainda existem, se a vontade de falar tudo num só abraço seja sempre maior que a coragem de dizer na cara, eu escrevo pra anular todo esse medo que por anos me acompanhou: o de te perder sem te falar do meu amor. És o homem da minha vida e eu te amo, pai.

 

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Álbum Desconhecido

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Foto: Caio Brant

Músicas não deveriam perder o encanto nunca. Aliás, deveriam, por obrigação, fazer todo sentido sempre, não importassem o tempo, o momento nem meu temperamento.

Não que, com o passar dos dias, elas percam aquele valor do compositor inspirado, das letras e arranjos em harmonia com tudo que sinto, mas é que o encantamento primeiro, de certo modo, vai se perdendo, desbotando as notas, diminuindo o volume, sensações inaudíveis.

A gente ouve uma vez, canta várias outras e quando pensa em fechar os olhos pra sentir tudo aquilo de novo… Ué, cadê? E lá se foi o atalho único pra se chegar nas lembranças e fincar os pés nas memórias.

Não deveria mesmo ser assim! Músicas deveriam manter-se intactas, cheirinho de encarte novo, despertando em cada um de nós o mesmo sentimento hoje, amanhã e repeat, repeat, repeat…

Pensando bem, as pessoas também. Atraentes e sonoras sempre, sem perderem a mão, sem errarem o passo, a cadência e o compasso. Vai dizer que não?