Disritmia

Foto: Fabíola Lourenço
Foto: Fabíola Lourenço

Aquela rotina que cansa, sabe? Não a dos dias previsíveis, dos mesmos caminhos percorridos, que eu tô falando, essa aí, mal conheço! Falo daquela outra, presa em ti e em mim, quase sempre entre nós. A mesmice que ocupa o lugar do amor surpreso, da excitação que escorre pelos poros, e acinzenta as melhores intenções. Tão mais trágica, não?!

Não era bem com esse sentimento repetitivo o meu acordo. Outro tipo de entrega era o que eu esperava, a tal confusão proposital entre um e outro. Onde começa? Onde termina? Se é que termina. Enquanto tu não chegavas, era outra trilha que eu ensaiava, aquela música pra se dançar a dois, a tal poesia particular que outro dia eu argumentava, só nossa, entende?

Quando eu te tirei no salão, meu interesse era a companhia, não o compasso. Eu queria mesmo era o distúrbio, pra que fizéssemos do nosso jeito, mas parece que cansaste. Dois tropeços e tu já querias parar.

Ouça meu pedido disfarçado de conselho: não sentes antes da hora nem te acomodes no lugar-comum, como aqueles que não têm mais nada para esperar. Agora que começamos a acertar o passo, improvise comigo! Que vez ou outra nos falte o fôlego, mas nunca o ânimo. Aumente o som, por favor, para que bailemos no ritmo novo do imprevisto, pra gente nunca mais se cansar.

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Os Rumos

 

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‘Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras,
sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!’
Cecília Meireles

 

Escrevo mirando um alvo. Mas as palavras, por sua vez, atingem quem bem entendem. Autônomas por natureza, elas vão por onde querem. São livres, desimpedidas. Bem mais que eu. Soltas que são, incondicionalmente, voam. Por todos os lados, para qualquer canto e direção. Aqui. Ali. Nela. Naquele. Em ti.

No terreno dos outros, encontram abrigo. Palavras minhas, sentimentos alheios. Encaixe perfeito. Alquimia. Efeito. Ação. Reação. Saídas de mim. Só vejo partirem. Não controlo. Procuro não saber o rumo, elas sabem. Só disparo e assisto. Vez ou outra, elas chegam até aí. Entre tuas inseguranças, teorias e desassossegos. Enquanto outras podem nunca chegar. Porque isso… Ah, isso sempre vai depender. A compatibilidade dos alvos é que vai dizer.

 

Mais Um

 

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Poesia pra falar de amor,
poeminha pra te dedicar.
Prosa pra contar do dia,
verso pra te inspirar.

Crônica depois do meio-dia,
conto quando a gente acordar.
Dedicatória que deixei na porta
pra você de mim lembrar.

Haikai com letras
do teu nome e sobrenome
pra me declarar

Citação do Leminski que eu decorei
pra te recitar quando voltar.
Textinho de rimas fáceis no meio da tarde
só pra reclamar da falta de tempo e te entregar.

 

~ouvindo a linda da Luê~

 

Quem, eu?

 

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‘Você está, você é. Você faz, você quer.
Você tem. Você diz a verdade.
E a verdade é seu dom de iludir’.

Caetano Veloso

 

Mas por que eu teria alguma chance de ser a principal causa dos teus problemas? Seria mesmo eu o protagonista de uma história infeliz que nem quis começar? Vem cá e me diz: que probabilidade maldita é essa que não me favorece?

Mal tive forças pra dar conta dos meus sentimentos, imagine agora ser responsável pelos teus. Cara, nunca me ocorreu subordinar tuas intenções às minhas vontades. Nunca me passou pela cabeça manipular todo esse enredo. E do jeito que desenfreado sempre foste, mesmo que eu quisesse, teu coração nunca me alcançaria. Minha lentidão jamais te esperaria! Fora de cogitação qualquer acordo.

Pelo contrário, me dei o trabalho de espalhar sintomas por todos os lados. De um jeito ou de outro, tudo o que eu tinha pra falar era que nossos passos eram feitos pro desacerto. Juntos, sempre fomos descompasso, não vês?

Foste buscar em diversos motivos o alimento pra essa paixão sem pé nem cabeça, porque quiseste. Eu não te devo desculpas nem justificativas. Não passei de uma imagem desfocada pendurada na parede das tuas ilusões. Não passei de lenda, fetiche, materialização dos teus pensamentos. Aquelas palavras nunca foram minhas. Nossas promessas não existiram. E aquele futuro bom, sequer houve. Sou tão irreal quanto esse nosso amor.