Brincar de haikai

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Foto: Petterson Farias

Um medo por vez
peço mas ela não ouve
tenho que lidar

Eu tento gritar
Uma ilusão apenas!
Ela finge surdez

Insisto – vai que
venço pelo cansaço
Um amor só meu!

Mas nem assim!
Nada me acontece
cruel aceitar

a difícil lição
de que a vida quando quer
não resta opção

 

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Vezes Mil

Foto: Fabíola Lourenço
Foto: Fabíola Lourenço

Engraçado essa coisa de se notar feito aos pedaços, um todo repartido, sabe-se lá em quantos cacos. Ser assim me parece bom negócio, em certo ponto até alivia. Porque, pensa comigo, mesmo que alguns traumas bobos te dilacerem vez ou outra, quase ao ponto de te matar, ainda assim, outras partes tuas permanecem intactas. Mesmo que a razão te traia por dois segundos, ainda assim teu coração manda seguir.

Como se fôssemos uma casa feita de muitos quartos, mas de portas que não dão uma pra outra, meio que como um trem de infinitos vagões, mas com janelas que só se abrem para a paisagem. Sofrer parece dar até menos trabalho. Viver feliz, nem se fala! Os estragos nunca vêm em cadeia. E assim fica tão mais fácil consertar-se, juntar os pedaços, já imaginou?

É como se o equilíbrio fosse inevitável. Nem muito pesado aqui nem levíssimo lá. Nada capenga, tua vida na medida. Fragmentos que não se conversam ou elementos que se protegem, muitos num só ou apenas um querendo sobreviver.

E só!

 

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‘Pra falar de tolerância
e acabar com essa distância
entre nós dois’

Ana Carolina

 

Professou sua fé sem dialogar,
boca muito aberta, ouvidos fechados,
com receio de ver o outro se expressar.

Falou sem ouvir,
acreditou sem dividir,
viveu de discursos alheios repetir.

Enxergou no contrário, adversário.
Excomungou a diferença.
Embora vasto fosse o mundo,
só lhe bastava a sua crença.

Reproduziu a intolerância,
confundiu tudo e propagou a ignorância.
Cabeça baixa, olhos no chão.
Foi capaz de tanta coisa,
mas de aceitar que ao seu redor
coexistiram outras verdades…
Ah, isso não!

Viveu só. Mudo e só.
Pensou que fora chamado, a vida inteira, de intransigente
pela crença que carregava, mas não.
Fora chamado assim pelo medo absurdo de encarar
outras crenças de frente.

Assim até eu. Meu querido, até eu!