Duas notas, por favor!

 

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‘Eu sempre havia precisado
de silêncio para escrever,
porque minha mente atendia
mais à música que a escrita’.

Gabriel García Márquez

 

Acho de um altruísmo tão genuíno esse desprendimento todo da música. Essa coisa de uma só vez te emprestar os ombros, as mãos, raciocínio, refrão, dimensões. Bastam alguns acordes e parece que o mundo é inteiramente teu.

Tem dias que é canção embalando teus reflexos com a bossa nada nova do desaconchego. Em que a música afina tuas notas com as rimas constrangidas de um coração sem paz. Mas tem outros em que ela te deixa repetir aos berros as melhores estrofes, sentindo o perfume, recontando os passos, revivendo pessoas e repassando as letras de um passado sem fim.

São composições de instantes em que o ritmo te faz festejar amores tropicálias. Pout-pourri das nossas histórias. Rock da paixão mais punk. Zouk do meu bem. É a vida que entra pelos ouvidos sem pedir licença.

Dois pra lá.
Dois pra cá.
la la la la
Som, melodia e música,
benditos sejam!

 

(A ilustração veio lá do 180 Cartazes para Sair da Fossa)

 

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Reminiscências

Reminiscencias
Foto: Fabíola Lourenço

Tu bem sabes que por aqueles dias a gente já não se fazia mais tanta questão assim, não é? Mas não foi só isso, nossos desinteresses não pararam por aí, foram mais longe que a nossa boa vontade permitiu. E quando dei por mim, a tua música preferida já não me fazia mais efeito. Eu já não tentava dançar nem tirar os pés do chão, veja só. Eu havia perdido o ritmo, a harmonia, a cadência. Eu não conseguia mais te acompanhar.

Quando tentei te tomar em doses ainda maiores, fui todo anestesia. Tudo era silêncio, descompasso e pretérito imperfeito. E os desejos que tu me emprestaste, mandei devolver. Desocupei o guarda-roupa, o bagageiro do carro e os nossos porta-retratos sorridentes da cabeceira escondi. Queimei teus livros com as faíscas dos meus remorsos e não te consultei. Meus sentimentos por ti desequilibraram-se e caíram todos no esquecimento. Acabou o sentido e um mundo inteiro de considerações. Perdemo-nos para nós mesmos.

(Esse texto eu fiz em parceria com o menino Matheus Caravina, lá de São Paulo, que adora esconder o jogo, mas escreve lindamente aqui)

(In)diferentes

 

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Como pode a vida sexual dos outros ocupar tanto os teus pensamentos e as tuas preocupações? Embora possa não parecer, não, tu não precisas ter opiniões e julgamentos acerca daquilo que não queres usufruir nem do que não deveria fazer a mínima diferença no teu modo de vida. Se a tua curiosidade se baseia apenas na necessidade de ter o que falar, opinar ou acusar, ela já começou errada, perdeu todo sentido e não vai te fazer bem. Acredite, o mundo vai continuar a girar se tu não emitires os teus discursos, nadinha vai mudar de lugar.

Não que seja incômodo o ponto de vista contrário, as crenças e convicções que permeiam os pensamentos que não se assemelham aos meus, de modo algum. A chatice consiste no fato de tu continuares achando que um conceito e uma verdade anula a outra e que é impossível estar e ser diferente. Não menosprezes assim a coexistência, logo ela, tão palpável, tão prestativa, tão benéfica. Cara, milhões de pessoas ainda conseguem viver sem o aval de quem quer que seja, elas conduzem bem a vida que levam, independente do que defendem os teus princípios e a tua educação. Vivem sem se preocupar com o deus que tu serves, com o que tu fazes com o teu dinheiro, com quem tu andas e com quem tu te relacionas, porque tudo isso nunca vai ser fator determinante de personalidade e caráter de nenhum deles. E só por isso são livres. Só por terem essa consciência, é que eles não questionam a tua sexualidade, tuas doutrinas, teus amores e vivem felizes.

E se cabe aqui um conselho: faça o mesmo! Indague menos, prossiga teus caminhos com os fragmentos que cada um QUER e PODE te oferecer, sem cobrar nada além disso. Sejas paciente e bom. Sejas, sobretudo, sensível e permissivo com as diferenças, vem delas a substância primordial pras nossas relações e pra todo e qualquer convívio saudável.