E é bonita!

 

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Ei, pequena, vem cá, vem! Chegue mais perto, me diga umas indecências ao pé do ouvido e fique até mais tarde, vai. Me empreste tua companhia, deixe tuas coisas ali em cima, tire os sapatos e termine esse texto comigo! Inverta tuas escolhas por mim, enquanto ninguém repara! Faça do meu corpo objeto dos teus desejos, enquanto eu deixo tu me colocares outra vez na rota dos que sentem fome e me comem pelas beiradas.

Mas não me deixe dúvidas nem me cause medo. Fale sorrindo do teu dia e seja inteiramente despretensão. Me puxe pelos braços, me leve pra dançar. Repasse comigo outros passos, que os meus eu tô cansado de ensaiar. Enquanto isso, ponha a mão aqui, mas sem machucar, tá? Isso, exatamente assim… Agora perca essa vergonha e repita o movimento sem parar.

Mas, querida, não se faça de doida! Nem pense em me deixar sozinho aqui. Espere essa música terminar, que sozinho eu não acerto o tom, o compasso, muito menos teu endereço. Diga que está bem e que meu perfume é o teu preferido. Se abra pra mim, veja que é bom. Faça de um jeito com que eu esqueça toda vida lá fora. E quando a festa acabar, me carregue pra aonde tu fores, que eu tô cansado de ser só. Feche o quarto, apague a luz, deite comigo, brinque de efêmera e repita que vai passar. Mas quando passar, repita que vais voltar.

 

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São só hipóteses!

 

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‘Entra pra ver,
mas tira o sapato pra entrar.
Cuidado que eu mudei de lugar
algumas certezas’.

Cícero

 

Talvez um dia eu te perdoe pelos dias de desordem e caos. Pelo tempo fechado que o teu temperamento provocou e pelas janelas que tu deixaste abertas de propósito, só pra eu me molhar. Até porque, mais que eu, tu conheces cada canto dessa casa que deixaste desarrumada, assombrada pelas tuas falhas e corroída pelas tuas inseguranças. Preciso falar do trabalho que deu pra reorganizar?

Não agora, porque me falta pressa, mas até mesmo pela tormenta que foi gostar de alguém que nunca se importou e conseguiu ser alheio ao próprio mundo, talvez eu te perdoe. Se sobrar tempo, ainda me coloco no teu lugar e compreendo melhor teus vinte e dois anos numa mesmice de quase 70 só pra eu te malquerer bem menos, tá? E não se engane, é possível, sim, que eu não mais lembre das tuas frases pela metade, te esqueça por completo e dos teus sorrisos dissimulados eu resgate minhas expectativas, minha alma e meu futuro feliz.

Quem sabe, daqui uns anos, a gente não se encontra por aí, alheios ao passado, distantes de tudo que juntos tentamos ser?! Prevejo, inclusive, maturidade de ambos os lados e bem mais responsabilidade com as palavras, o tato e as reticências. Confesso, me faz até bem imaginar a franqueza ocupando o lugar que outrora fora das nossas tentativas atrapalhadas e de um sentimento egoísta e mesquinho apelidado de amor.

Mas mesmo assim, há o risco de eu nunca te perdoar pelo estrago que fizeste nos meus textos e de ainda te culpar pelo abismo imenso que ficou entre eles e alguma coisa boa que os fizesse sorrir. Porque de todas as camadas e instâncias que tinhas permissão pra bagunçar, esse era o espaço que eu havia reservado só pra mim, era o meu melhor jeito de estar só. Quarto trancado, não permitido pra ninguém vagar. Mas até nele, tu te intrometeste.

E por culpa tua, eles carregaram tuas digitais, codificaram teus traumas, ironizaram teus segredos e se arrastaram atrás de ti por longos e penosos dias. E pra isso não há perdão! Só por isso, juro que eu seria capaz de te condenar por toda vida. Pois ainda que se arrume a casa, se clareie o tempo e se construa um novo futuro, me sobram os cômodos vazios, as fragilidades admitidas e os amores controversos sobrepondo, substituindo e sufocando as felicidades que meus textos nunca mais vão conseguir descrever.

 

Próxima Estação

Próxima Estação
Foto: Petterson Farias

Eu andei por aí um dia desses, vigiando tuas ruas, frequentando teus centros e invadindo teus becos. Não quis bater na porta, muito menos te incomodar. Já pensaste minha voz alta e meu riso desbocado invadindo os corredores da tua vida? Não, não! Evitei passar perto. Cara amarrada, calçadas opostas e vidas distantes sempre combinaram mais com a gente.

Mas fiz dos teus vilarejos, os meus. Sem te avisar, aproveitei que tu não estavas e passeei por ti, caminhei por nós e fiz questão de te ver nos sotaques e paisagens que me fizeram tão bem. Pelas manhãs, visitei tuas igrejas e emprestei tuas orações. E numa dessas tardes, pisei no chão que te projeta e nele o reflexo era eu. Fui por dias tuas raízes, tuas estradas e tuas histórias. Eu entrei em ti! E tu do lado de fora ficaste! Ué, estranhei por quê? Novidade alguma.

Só que minha volta tinha data marcada, e sem meios, nossos inícios anteciparam o fim. Sairia caro ficar, então preferi voltar. Até porque, eu também pude constatar: cedendo minha vaga pra outros estrangeiros e me despatriando de ti, tenho sido bem mais feliz. Pego o trem das três, abandono tua cidade e desembarco na última estação. Talvez eu te mande notícias, mas não perde teu tempo fingindo esperar.

Agora varre teus aposentos que tem gente nova chegando por aí. E tu deves fazer bonito pra impressionar! Põe tua melhor roupa e ensaia tuas mais fofas mentiras. Não me decepciona, hein?! Os que virão também precisam te ouvir e em cada jura tua, acreditar. Eu sei que tu consegues, é contigo! Até nunca mais.