Do Amor e Outros Demônios

 

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De tudo que poderia ter sido, ficaram só nossas promessas.
Confundidas umas nas outras,
nos acusando de muita pressa e tão pouco vínculo.
Restaram minhas desconfianças e teus desassossegos,
assim como a impossibilidade lancinante de um certo amor.

A gente não seu deu ao gosto, ao tempo e ao espaço.
Muito menos um ao outro.
Heterogêneos na essência, repudiamos toda mistura.
Faltou coragem pra nos admitirmos recíprocos.
De tudo que poderia ter estado, nada sobrou.

E espremidos no cantinho escuro da consciência que ainda pesa,
ficaram tuas músicas preferidas que eu decorei e
os livros do García que eu quis te dar.
A ferida exposta e um sujeito partido ao meio.
Pretérito imperfeito difícil à beça de conjugar.

 

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Sete e pouco

 


 

‘Nós dois que sequer nos parecemos
e não cabemos num mesmo espelho,
mas 
nos olhamos toda manhã’.
Ana Carolina

 

Hoje ela acordou disposta a odiar o mundo. Reclamou do despertador com a pilha fraca e, amaldiçoando o calor da noite, quis ofuscar meu ‘bom dia’. No quesito cara amarrada, não fez feio. Tirou de letra! Falou do cabelo crespo, do café sem açúcar e do medo de engordar. Pff! Andou pela cozinha impaciente, desviando meu sorriso e os gatos que tentavam lhe alcançar. Ignorou a ligação urgente, o meu rosto amassado e as músicas do rei Roberto. Se ela queria dizer que não era um bom dia, sim, eu já tinha entendido.

 

Desfiz a mesa, meu bom humor matinal e fui pro trabalho. Ficou ela lá falando sozinha. Ela e o rádio, aliás. Do carnaval que já tava em cima, dos parentes que iam chegar, da obra na casa do vizinho e do salário cada vez menor. Eu, hein?! Tinha despertado decidida a descontar todas suas faltas na relação e nos reajustes, que como ela estavam pela hora da morte!

 

(a imagem é daqui)

 

Né?!

 

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Mas que saco esses textos, livros e amores pela metade.
Como se não bastassem a inutilidade dos espaços que preenchem,
a sensação de tempo perdido e o vazio que é não completá-los,
eles ainda te obrigam a lidar com esse arrependimento ranzinza,
típico das histórias que a gente nem deveria ter começado.

 

(a ilustração eu roubei do Mario Brito)

Autoboicote

 

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Do verbo contrariar-se. Dizer-se não.
Significa sufocar certezas que chegaram prontas.
Cortar-se pela raiz. Ser por inteiro negação.

Refere-se à abstinência dos desejos que
nascem no fundo e percorrem aí por dentro.
Sinônimo de não-entrega.
Fuga do que traz identificação, mas não faz bem.
É projeção do que se quer ser. Condição para todos os fins.

É tentativa de desprender-se das carências que beiram a demência.
De abortar todas as vontades e amores que adoecem. Asfixiar-se.
Quer dizer trancar as portas. Iluminar esconderijos possíveis.
Mudar os caminhos. Outros atalhos, outras peles, outras vidas.
Mover-se. Clarear-se. Recomeçar-se.

 

Justifique sua resposta

 

Mas quem nunca amordaçou
palavra por palavra,
cuidando pra que o silêncio
consertasse tudo,
e ao tropeçar no que,
sem querer, deixou escapar,
confessou o que não queria?

 

Quem nunca se projetou
maior do que podia só pra
que coubesse mais?
E, traindo a si mesmo,
meteu os pés pelas mãos
e comprometeu o coração?

 

Quem nunca, meu Deus? Quem nunca?

 

Nosso Fim

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‘É melhor que caminhar vazio’.
Peninha

 

Minha saudade veste tua cor preferida. Combina mais do que deve com teu estilo e com o tom do teu cabelo. Anda por aí feito louca, desvairada, querendo teu cheiro, teu desleixo e o máximo de satisfações que tua ausência pode dar. E só pra mim, confessa baixinho que ainda ama quando tu te importas. Ela calça teu número, decifra teus rabiscos, vive a se impregnar de manias que te pertencem e de hábitos teus espalhados pela casa.

Como se não bastasse, vaga pela rua enxergando teu nome em tudo quanto é canto. Tudo quanto é coincidência. E vem correndo me chamar pra me mostrar, querendo me provar, a todo custo, que tua morte é ilusão. Desde que tu te foste, nunca esqueceu teu endereço e teu telefone ainda sabe de cor. Dança sozinha conforme teu ritmo. Imita teu humor. Age igualzinho. E ainda tem a audácia de por ti me prometer que vais voltar.

Eu que não sou louco (finjo que) nem ouço. Não repito o passo, que é pra nem entrar na dança. Ensaio outras saudades, dito outros textos. E perambulo entre corpos que não deixam a desejar. Fingindo que nada ouço. Que não te ouço. Que nada sinto!