O Mínimo

Foto: Fabíola Lourenço
Foto: Fabíola Lourenço

Num dia diminuem os círculos. Reduzem-se os braços, sorrisos, abraços. Noutro, as pessoas e os apoios. Ontem um, hoje dois, amanhã, sabe Deus! E quando tu vês, nos dedos já se contam todos.

Num dia tu desaprendes a receita do exagero. Noutro, tu entendes que filtrando as sobras, fica o essencial, o necessário. A parte mínima que inspira, quase nada, porém tudo.

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Epifania

 

Um instante, nem mais nem menos. Um momento da vida em que tu jogas limpo com tua própria consciência e reconheces a necessidade de ser livre, de não mais se amarrar. Quando tu decides não mais sofrer pelas convenções e te permites jogar fora todas essas manias que se costuma colecionar entre uma relação e outra. É a partir desse segundo que tu passas a viver em prol do que, embora em menor proporção, te faz muito melhor. E não mais submetido ao sufocamento do outro, tu vives feliz.

 

Que coisa!

‘De cada amor tu herdarás só o cinismo‘.

Cartola

 
Essa coisa de gostar mais do outro do que de si mesmo.
E se sujeitar ao que te impõem,
entregando em mãos desconhecidas
o arbítrio que deveria
ser só teu.

 

Essa coisa de amar como quem recebe ordens
e ainda se sentir na obrigação
de convencer o mundo de que és feliz,
anulando tua história em troca daquilo
que apenas um encara como relação.

 

Essas tentativas de depositar em qualquer um
a culpa por tudo o que te falta.
Essa coisa morta e disforme que tu finges ser amor,
teu jeito sujo, leviano e torto de gostar.
Essa coisa (toda errada) de transformar teu amor-próprio
num verbo impossível de se conjugar.

 

O texto que habito

O Texto que Habito

É preciso que tu entendas de uma vez por todas.
Escrevo pelo desconcerto.
Tudo o que redijo é desconforto.
E se estou bem, não há motivos.

Contrário àqueles dos 1.001 verbos felizes,
estou nas letras que menos riem
e mais gritam o que conflita.

Eu me encontro nos textos que
fazem o caminho inverso,
atravessam todas minhas angústias
e partem de dentro.

Quando me enxergas desacompanhado,
carente de palavras, não deves te sentir no direito de estranhar.
Minha abstinência é sintomática e
há lógica em todo esse vazio textual.

Aprendi a te contar minha vida sentimento por sentimento,
não vírgula por vírgula, verso por verso.
Tenho sujeitado desde sempre minha escrita ao amor torto.
E eu já não amo há algum tempo!