Combinado?

 

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Só me diz que vai ser bom. Nem mais nem menos.
Pra aonde vamos? O que vestir? Quanto levar? Por favor, não me responde.
De tanto perguntar, outro dia te assustei.
Bateu porta fazendo birra, dizendo que não ia mais voltar.
Mas voltou! E das tuas respostas, agora eu quero distância.

 

Faz assim: pronuncia o mínimo.
Economiza o verbo torto que confunde.
Reproduz tuas intenções nas atitudes.
E pronto, nada de supor ou concluir.
Que eu me foque em te ler e tu só em sentir.

 

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Metalinguagem?

 

E aí te cobram letras cursivas,
Vírgulas bem empregadas,
Parágrafos pontuados.
Até coesão?

 

Te leem suplicando metáforas.
Desejando aforismos.
Sutis ironias.
Gradações?

 

Querem regência,
Eloquência,
Coerência.
Rima?

 

Letras maiúsculas.
Acentos agudos.
Interrogações!

 

Esperam teu texto mastigado.
Da primeira letra ao ponto final.
As funções, as figuras, os predicados.
A conclusão?

 

E tu lá…
Só tentando escrever
toda a confusão inerente
àquele que sente.

 

Em outras palavras

 

Já existiu o tempo dos questionamentos, dos aborrecimentos, do completo descontentamento por uma vida inteira de sentimentos demonstrados pela metade, quando demonstrados.

 

Já existiu o dia de sofrer sozinho, de chorar escondido, de amar calado. Existiu também as horas de palavras nunca pronunciadas, assuntos nunca comentados e abraços abortados pela lei vergonhosa da distância imposta por nós mesmos.

 

Não tenho a mínima ideia de como sejam as relações cultivadas na casa alheia, na sala do vizinho, no apartamento do outro lado da rua. Se são melhores ou piores, mais intensas ou mais escorregadias que as respostas do que nunca se quer dizer, pouco me importa.

 

Sei bem é de cada olhar desconfiado, de cada declaração partida ao meio. Conheço profundamente cada entrelinha do que por boca nenhuma foi dita e de toda a dificuldade de se amar num espaço em que as palavras já nasceram aptas a desaparecer quando mais precisamos delas. Sim, existiu. No mais perfeito pretérito de um antigo relacionamento que não mais é.

 

E mesmo que apenas soe como um desabafo ou uma queixa dos meus últimos 24 anos, escrevo mesmo para confrontar tudo o que foi estabelecido até aqui. Para enfrentar o silêncio falando. E gritar na cara o amor que nunca faltou, mas também não foi dito.

 

Para redigir letra por letra um sentimento que, talvez, eu só tenha sentido. Registrar o que em todo tempo foi verdadeiro. Velado, mas verdadeiro. E resumir num só texto as inúmeras tentativas de falar.

 

Apenas para lhe dizer que todas as vezes que eu quis realizar sonhos mais seus do que meus e todas as vezes que eu procurei ser o filho mais exemplar, só quis em outras palavras dizer: Te amo, Pai.

 

(Escrevi esse texto no dia dos pais de 2011. Ele gostou, claro)

 

Paralelos

Paralelos

Eu nem te pedi férias. Nunca quis me livrar.
Você entendeu errado. Quem padeceu fui eu.

Tentei chegar mais perto. Meu grito foi para você ficar.
Mas você se deu o direito. Tampou os ouvidos e escapou.

Éramos dois. Agora somos sós. Como você sempre quis.
Impaciência minha. Egoísmo teu.

Extremos e incompatíveis. Amarrados pela distância.
De divergentes conceitos. Do que é sentir.