Dissonância Cognitiva

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Chegaram sem mais nem menos e, sem permissão, todos meus instintos etiquetaram. A eles, deram nomes, rótulos e até slogans. Simples assim! Transformaram-nos em objetos de desejo, em produtos de consumo, títulos de capitalização.

Embalaram meus sentimentos em latas coloridas, chamativas, de fontes enormes e cores berrantes. E anunciaram em sons sedutores, em letras chamativas, serifas exageradas, frases de efeito, daquelas bem fáceis de gritar. Approachs, ênfases, hipérboles. Tsc, tsc.

Ouvi meus desejos em alto-falantes, li meus segredos em propagandas de página-dupla, meia-página, meia-boca, p&b. E meus medos, em tons de cinza, despercebidos passaram, sequer disputaram com a pompa, cor e elegância do anúncio caro, que estampava o carro do ano.

Vi meus sentidos em oferta, expostos numa vitrine cheia de quinquilharias, outros sentidos… 1001 (in)utilidades. À vista, a prazo, 24 vezes, sem juras. Pagaram por um, levaram todos. Não eram mesmo nenhuma Brastemp.

E, de repente, minhas paixões resumidas a códigos de barras! Meus desejos empacotados, encapsulados, meras mercadorias ajustáveis e personalizáveis. Meus amores ali, aqui, acolá, escancarados em outdoors, anúncios de jornal, em panfletos amassados. As felicidades que um dia julguei serem só minhas, todas no varejo, no atacado, com desconto, manual, garantia e tudo. E os prazos de validade que ninguém viu, indicados num rodapé, apenas eu notei: menores que o próprio título desse texto. Publicidade, efemeridade: cartas marcadas, palavras rimadas, não-sinônimas por um triz. Eu bem que desconfiei.

Mas passado o susto, entrei no jogo e quis algo em troca. Uma mão lava a outra, argumentei. Me ofereceram beijos, alheios desejos, abraços, amassos. E eu entusiasmado aceitei, iludido, achando que, sei lá, eram brindes, amostras grátis ou coisa assim. Mas o alarme tocou e eu barrado na porta fiquei. Tudo devolvi, porém não desisti. Tornei a procurar. Procurei, procurei, mas não achei.

Chamei o atendente e pedi a ele um sentimento que fosse bom, durável e barato.  PRODUTO EM FALTA, lamentou. Sentimento igual àquele, artigo de luxo, não era de se encontrar fácil assim, em ponta de estoque, numa liquidação qualquer pós dia dos namorados. Além do quê, seu valor nunca foi em conta, sempre cobraram absurdamente mais. Lógica de mercado, oferta e procura, sabe? Era caro e eu, bem sabia, não estava disposto a pagar. Preço alto, recompensa mínima.

Saí com as mãos vazias, então. Com os bolsos e sacolas mais vazios ainda e meus instintos?! Meus instintos e sentidos ganharam leão em Cannes, viraram cases de marketing, sucesso mercadológico e agora, por aí, todo mundo usa.

(Peguei a foto do Exaltatumblr)

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