Incompleto

 

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Me pareceu dona de uma dor tão cafuza. De um negro rancor.
Sabe, assim, obscura?
Pude reparar que durante a noite sua cor era claramente mais confusa.
De um pálido amor. Sem rasura.

Entretanto, era linda. Irremediavelmente, linda. Enquanto eu, um invisível. Sem rima alguma, admirado apenas. Éramos dois, portanto. Aliás, éramos quatro. Ela, a noite, o acaso e eu. Ele, diferente de mim, bobo nem nada, era quem tomava a iniciativa, puxava as cadeiras e nos oferecia goles de uma bebida forte, a chance.

Era pra serem somente duas palavras e três beijinhos, juro. Ligeiros como as horas daquela MADRUGADA? MAS JÁ? Mas não foram. Mal deu meia-noite e já pairava ali um ar de certa cumplicidade. E aquele desejo de parecer fácil, mas sem parecer dado, sei lá, sabe como é? No impulso, tateei o bolso e puxei um soneto de horror, feito outro dia, endereçado, claro, a outro alguém. E a carta perfumada, fiz ela sentir. Nem o cheiro nem a cor: O peso. Recitei todas as tristezas dos meus meses nublados, em que a casa ensolarada, pouca diferença fez. Entre um medo e outro, de parecer íntimo demais, contei tudo a ela. Falei daqueles contornos feito a mão, de caneta-cor-azul, carregados sem dó de mim.

Que me entendia, ela fez questão de sugerir. Com aquele olhar, não sei, mas se não me falha a memória, meio preto, meio castanho… Inteiramente intenso. De uma leitura tão boba, quase infantil, não importasse o ângulo, que simulava uma janela escancarada pro vazio cor-de-nada, cinzento feito eu. Foi de uma sutileza feroz, notável. Entretanto, de uma imobilidade chata, corrosiva, incômoda.

Do canto escuro de onde ecoava todo o seu descaso, vi ele nascer. O dia pardo, revelador. Feito ela, sensível ao toque, bochechas multicor. E ali mesmo, ou noutro canto, não sei bem, recordo-me de uns abraços sujos, de uns agarros sem mais nem menos, de uns beijos inconsequentes. Lembro-me de uma moça sem nome, minha por uma noite, minha por um texto, toda minha por um parágrafo e-n-l-o-u-q-u-e-c-e-d-o-r.

Não mais vulnerável, não mais inofensiva, contudo…
Faminta, expressiva,
boca-gosto-forte-de-tesão.
Redonda, pejorativa,
cintura-dona-de-si-toda-cheia-de-razão.
Pele, poros, dedos e desassossegos.
Braços, orelhas, libido. Ah, mas que libido.
Mela-nina e quatro pernas sem sentido.

Nossa!

30 suspiros, 4 cigarros, que horas são, por favor? Já era tarde, demasiadamente tarde, quando catei as roupas, os efeitos, e procurei traços de uma pintura feita fora dos padrões e dos bons constumes. Eram quase seis, quando passei a mão nela, como quem tenta encontrar a moral de tudo aquilo, o ponto final, o limite. O ponto final, sim senhora, como não? Ela não deixou. Ofereceu-me o início, mas em contrapartida, pediu-me o fim. As cenas foram nossas, portanto, que o texto também seja. Argumento pífio, a utopia foi toda minha, mas tudo bem. Partido ao meio. Meio meu, meio dela. Confuso como a sua cor. Sem identidades, sem codinomes.
Atemporal.
Universal.

O que você leu agora, metade meu.
O que ficou em branco, metade dela.

 

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Quatro Paredes

 

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Naquela hora que te olhei, o teu pedido de socorro foi o que mais esperei. O teu grito ensurdecedor eu desejei, perdido ali, sobre a cama feita, inundado nos teus mistérios, coberto por retalhos de um tempo passado e de um amor roubado, sabe Deus quando, por que e por quem. Mas você o que fez? Vestiu-se de um silêncio absurdo, massacrante. Eu diria, constrangedor.

Meus dias foram testemunhas do quanto tentei, feito brinquedo novo, os teus apelos manusear, com cuidado especial de quem um dia percorreu teus labirintos e quis com fiel interesse te estudar. Quantas tentativas vãs e desesperadas de te arrancar todas nossas palavras, todos nossos diálogos, outrora evitados, e as vezes em que pudemos ser felizes, mas a omissão não deixou.

Mil e uma reações, incansavelmente, ensaiei. Eu estava disposto, não duvide você, a topar qualquer negociação, a te pedir perdão, por ti outra vez me apaixonar. Mas o teu calar parecia tão decidido, tão mudo era aquele teu sentimento bobo, virado pra janela com a cara de quem pouco culpado era de tudo que aconteceu.

Cogitei te ler, te abraçar com todo meu comprometimento, com o melhor das minhas compreensões. Quis com as minhas mãos te arrancar palavra por palavra, intenção por intenção, mas não achei o fio nem desejo algum de todos aqueles que um dia nos entrelaçou.

Eu me aproximei pra ouvir, quem sabe, o teu sussurrar, cheguei perto pra te pedir de volta nossa velha vida, nossa comunhão cega, de um quarto escuro, vigiado pela obsessão de pernas, mãos e braços quentes. Cheguei a desenhar entre linhas uma prece que rogava por um beijo teu.

Gritei por ti, roubei tua vez. Falei pelos cotovelos, pelos pulsos e artérias. Berrei com todos os gestos e com a tua voz, mas tua boca faltou. Você não foi ouvido, não me emprestou sequer tua atenção. Me abracei feito tolo com o nada. Senti por dentro o vazio. Do lado de fora, não era eu, era você, era frio, eu te amei calado, era o nosso fim.

 

(A foto, eu peguei sem permissão do Flickr do Dalmaso)

 

Dissonância Cognitiva

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Chegaram sem mais nem menos e, sem permissão, todos meus instintos etiquetaram. A eles, deram nomes, rótulos e até slogans. Simples assim! Transformaram-nos em objetos de desejo, em produtos de consumo, títulos de capitalização.

Embalaram meus sentimentos em latas coloridas, chamativas, de fontes enormes e cores berrantes. E anunciaram em sons sedutores, em letras chamativas, serifas exageradas, frases de efeito, daquelas bem fáceis de gritar. Approachs, ênfases, hipérboles. Tsc, tsc.

Ouvi meus desejos em alto-falantes, li meus segredos em propagandas de página-dupla, meia-página, meia-boca, p&b. E meus medos, em tons de cinza, despercebidos passaram, sequer disputaram com a pompa, cor e elegância do anúncio caro, que estampava o carro do ano.

Vi meus sentidos em oferta, expostos numa vitrine cheia de quinquilharias, outros sentidos… 1001 (in)utilidades. À vista, a prazo, 24 vezes, sem juras. Pagaram por um, levaram todos. Não eram mesmo nenhuma Brastemp.

E, de repente, minhas paixões resumidas a códigos de barras! Meus desejos empacotados, encapsulados, meras mercadorias ajustáveis e personalizáveis. Meus amores ali, aqui, acolá, escancarados em outdoors, anúncios de jornal, em panfletos amassados. As felicidades que um dia julguei serem só minhas, todas no varejo, no atacado, com desconto, manual, garantia e tudo. E os prazos de validade que ninguém viu, indicados num rodapé, apenas eu notei: menores que o próprio título desse texto. Publicidade, efemeridade: cartas marcadas, palavras rimadas, não-sinônimas por um triz. Eu bem que desconfiei.

Mas passado o susto, entrei no jogo e quis algo em troca. Uma mão lava a outra, argumentei. Me ofereceram beijos, alheios desejos, abraços, amassos. E eu entusiasmado aceitei, iludido, achando que, sei lá, eram brindes, amostras grátis ou coisa assim. Mas o alarme tocou e eu barrado na porta fiquei. Tudo devolvi, porém não desisti. Tornei a procurar. Procurei, procurei, mas não achei.

Chamei o atendente e pedi a ele um sentimento que fosse bom, durável e barato.  PRODUTO EM FALTA, lamentou. Sentimento igual àquele, artigo de luxo, não era de se encontrar fácil assim, em ponta de estoque, numa liquidação qualquer pós dia dos namorados. Além do quê, seu valor nunca foi em conta, sempre cobraram absurdamente mais. Lógica de mercado, oferta e procura, sabe? Era caro e eu, bem sabia, não estava disposto a pagar. Preço alto, recompensa mínima.

Saí com as mãos vazias, então. Com os bolsos e sacolas mais vazios ainda e meus instintos?! Meus instintos e sentidos ganharam leão em Cannes, viraram cases de marketing, sucesso mercadológico e agora, por aí, todo mundo usa.

(Peguei a foto do Exaltatumblr)

Escorrer

 

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Amar é ler um texto e desejar tê-lo escrito só para ti. É escutar a música brega, de sequências clichês, e jurar que um dia a compus para te embalar.

É ver teus cabelos, tuas manias e teus beijos em melodias e arranjos mal feitos. Em conversas de esquina, em bancos de praça, em filas de banco, em bancos de igreja, nos santuários escondidos das minhas paixões. É ser em cada frase, espelho. Em cada metáfora, reflexo.

É te notar e sentir involuntariamente todas as minhas frequências aumentar. Pulsar.  É te ter além… das reticências. É. tentar. te. prender. em. cada. repetitivo. ponto. e. mal. colocada. vírgula, É te pertencer só por entrelinhas e nem me importar.

Amar é com as minhas mãos te olhar, com meus olhos te roçar, com a minha boca te ouvir e do nada toda essa lógica trocar, só pra novas formas de te ter, experimentar. É te mastigar com ouvidos, braços, narinas e dentes. E em todas as tuas conjugações s-i-n-e-s-t-e-s-i-ar!

É de sentidos alheios me apropriar. É também negar direitos autorais por mera pretensão de achar que eles não são de mais ninguém. É emprestar sem devolver e ainda te oferecer. É se achar na obrigação de, ao saber que tá faltando, completar. Ou pelo menos tentar.

É costurar os sentidos, rasurar, corrigir, rabiscar, apagar e novas letras (re)desenhar. É colorir com as tuas nuances mais imperceptíveis e tuas sutilezas mais notáveis. Emoldur-arte.

É escrever, escorrer, reescrever, ver(-te) e continuar a escrever, mesmo sem ter no calendário um dia marcado para você me ler.

 

(Coraçãozinho da Fabí)

 

Vinte de Setembro

 

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Os sonhos que chegam com o despertar e a vida que eles reciclam antes mesmo do olho acordar. Os papéis dobrados, de palavras, textos e sentimentos ilegíveis, mês passado esquecidos entre livros empoeirados e cds de encartes rabiscados. E as músicas salvas no desktop, que cantam paixões, iguais àquelas que outrora por completo me invadiram, mas que sequer pela metade me saciaram.

As janelas abertas para o escambo cotidiano de experiências, por entre caracteres, links e emotions. As janelas digitais que se abrem antes mesmo daquela ali, frente a mim, coberta pela cortina amarela, impossibilitando o sol laranja de entrar. E a penúltima cena do filme antigo, solitariamente reassistido antes da tarde chegar.

A faixa dez do dvd comprado na nossa última viagem. E a infinitude de sensações que ela me consegue provocar. Os planos que me tiram da inércia, mesmo sem me levantar do sofá. O mês de outubro que vejo se aproximar e o jingle (mal) feito só pra lhe anunciar.

O exercício contínuo do olhar a captar, fotografar e registrar. A te registrar. E a mensagem indireta que escrevi pra te mandar, mas que o backspace da consciência leve me fez apagar. O dia quente, a tarde monótona, as entrelinhas que por entre eles tomam forma e num só estalo já se deixam reformular.

A procissão dos fatos. A sucessão das horas. A sua inerente lentidão. A velocidade do teu abraço. Teu mistério e teu mais genuíno descaso. Exagero meu, certeza. Tua indecisão, talvez. E meu amor em romaria sob a luz de uma cansativa espera.

Tudo o que me impulsiona. Tudo o que reabastece. O que aqui por dentro intensamente inspira e expira. Mas só por hoje. E já anoiteceu. Quanto ao que vai inspirar meu amanhã… Não sei dizer.

 

(Foto da Fabíola Lourenço)

 

Espelho

Espelho
Foto: Petterson Farias

As razões e emoções pelas quais pulsa o teu peito, até do avesso eu conheço. Por onde vão e se estendem teus piores e melhores pensamentos, até isso eu sei. A rapidez com que teu coração escolhe alguém e por esse alguém começa a suspirar; a hesitação disfarçada por entre risos e o medo que te faz frágil, inseguro das tuas próprias concepções, aspirações, divagações. Tuas janelas que dão para as minhas paisagens e as minhas portas que dão para as tuas ruas: os fios que nos ligam.

Sei de ti e isso não é de hoje. Aliás, reconheço-te. Porque te enxergo de longe, te observo de perto e quando não satisfeito, chego a te comer por dentro. Não vês vestígios porque não os deixo, mas estou aí. Imerso em ti. Estendido e tatuado, correndo solto nos teus insultos, nos teus abusos, nas tuas gradações de sentimentos decadentes. E nas rimas sem som que teus batimentos criam, sou o elemento que falta, a vogal consonante, o gerúndio do verbo existir.

Sou-te. Te sou, só que ao contrário. E que se danem as próclises mal colocadas. Sou e isso me basta. Tuas doses exageradas. Amores descontrolados. Frases exclamadas. Tudo! Conheço-te porque aí há mais de mim do que de ti. Tu não passas de reverberação, eco, reflexo. Quem existe sou eu e ponto.

Infinitivo

 

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Imergir e ir até o mais profundo de mim. Viajar pra bem longe de ti. Algo me diz que apenas assim a minha vida vai novamente sorrir. Voltar a existir.

Meu plano é, sim, ir embora, eu já te disse, mas não sem antes te prender, não sem antes todas as tuas paixões exilar. E eu voltei pra te trancar, vim pra fechar os cadeados e trancar a porta da tua casa. Solto não deixo mais nem teus pensamentos. Não faz bem, nem adianta arriscar.

Eu vou, mas tu ficas. Ora, se vou por tua causa, no mínimo, espero que compreendas e te comportes de maneira que eu não morra de desgosto quando pra ti retornar. Agora pega teus discursos e tuas promessas e engavete todos. Não quero nenhum deles ofuscando meu sorriso. Espero não revê-los tão cedo desiludindo meus presentes nem amargando meus futuros.

E antes que te queixes, eu aviso: tuas rimas e teus textos, censurei, achei que não combinariam em nada com o dia de hoje. Me senti no direito. Afinal, eram todos sobre mim. A ti, só cabe o silêncio. Portanto, trate de usufruí-lo.

Não ouse perguntar para aonde vou, quando eu volto e com quem deixo de ir. Ainda não há passagens compradas, muito menos ideias organizadas. Mas eu vou, esteja certo. Vou em busca de um novo estado, de um novo canto, de outras inspirações. Mas um dia eu volto. Acho bom me esperar! Ah, quanto à porta trancada: só abre por fora.

 

(A foto é do @neneto)