Alquimia

 

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Processo o disforme, o confuso e dou a eles o exato primor. Clareio o(s) sentido(s), o vivido, o não-dito, o não-escrito. E com as palavras eu brinco. Dou vida aos devaneios e formato aos sonhos. Das figuras e metáforas, uso e abuso. Procuro expressões, imperativos e verbos. Tiro. Boto. Tiro. Boto. Num vai-e-vem que não ter fim. Misturo tudo e do avesso eu viro. Rearranjo e sigo. Distribuo em palavras, orações e períodos, mais do que qualquer outra coisa, o que carrego aqui, dentro de mim.

Dito. Repito. Ecoo. Reproduzo o estado de espírito. De corpo. Da alma. Desenho letras. Vida elas recebem para falarem por mim. E no fim, a rima produzida, mais que sonora, soa vital, pessoal, intransferível e divaga na frequência do abstrato, do que pulsa, do que nunca deixou de ser. Sentimentos, sensações: convergência. Metalinguagem e poesia: tudo uma coisa só.

 

(Ilustração do Tobias Fonseca)

 

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Carta Aberta ao Twitter

Twitter,

Precisamos conversar. Pra começar, não me venha com aquelas suas perguntinhas idiotas do tipo “What’s happening?”, “what are you doing?”, nhem-nhem-nhem e mi-mi-mi, que você sabe muito bem do que se trata. E outra, sem aquele papinho de DR por DM, por favor, porque o que eu tenho pra lhe dizer precisa ser dito em muito mais do que 140 caracteres, viu? Bem, o fato é que, mesmo com todo mundo achando que nosso amor é ainda o mais bonito da cidade, ando meio descontente com essa nossa relação, sabe? Sim, teve boatos de que estávamos bem, na melhor, eu sei, mas PORRÃN, nada é como antes, parece que tudo baleiou, entende?

Poxa, hoje fiquei relembrando da época em que nos conhecemos, quando todos nossos amigos-em-comum faziam a mesma propaganda: “Ah, ele é legal!”, “O Twitter é divertido, interessante, bonitinho, você vai gostar…”. E eu, cansado daquela minha vidinha monótona com o Orkut, resolvi ceder. Aí veio o nosso primeiro contato, o meu primeiro tweet, os nossos links e seguidores… Ah, Tudo lindo. Só sei que antes mesmo do primeiro RT eu já estava dependente, envolvido nesse seu mundinho de hashtags, trend topics e follow-fridays. Fui gostando, fui ficando, me viciando e quando vi a coisa já tava séria. E apresenta pros colegas, leva pra jantar com a família, leva pro cinema, pro shopping, pra praia… Putz, não nos desgrudamos mais.

Não vou mentir, Twitter, me divirto bastante quando estamos juntos, perco a hora envolvido com esse seu empenho em me fazer conhecer, descobrir, sorrir e até me emocionar. Mas é que tem o outro lado, compreende? Eu queria que você entendesse que todo relacionamento é uma via de mão-dupla e enquanto você se envolve com outros milhões de usuários, também persuadidos por esse seu discursozinho de rede-social-do-momento, tenho todo direito de clicar no “Sign Out” de vez em quando, pra viver outras paixões, por sinal, bem menos possessivas que a sua.

Acho que já lhe dei provas suficientes pra você acreditar que eu sempre volto, não? Aliás, em dois anos, você acompanhou de perto minha felicidade ao me graduar e a minha tristeza ao sair da universidade, minhas viagens, minhas frustrações, minhas paixonites por followers de avatares todos bonitinhos, meus devaneios, meus sonhos, até meus memes idiotas. Temos uma história, portanto.

Mas, caramba, parece que nem ela consegue lhe libertar dessa sua insegurança besta. Tem que ver isso aí, olha, porque eu já nem sei #comolidar. E é por causa dessa sua insegurança maldita que chegamos nessa discussão, assim pra todo mundo ler. Se amanhã vai tá todo mundo comentando em blogs, sites e afins não tô nem aí. Logo, logo vem outro post e eles já esquecem desse aqui.

Agora, de uma vez por todas, é a última vez que vou falar: Conscientize-se de que eu ainda tenho uma vida offline, querendo você ou não, e ela não combina em nada com esse seu ciúme doentio. Sim, ainda tenho amigos sem arrobas, de carne e osso. Tenho outros amores não-virtuais e ainda me atraio pelo tato, pelo cheiro e sabor, coisas que você não consegue me proporcionar. Isso sem falar nas minhas manias, hobbys e gostos que você finge ignorar, mas que já me motivavam antes mesmo de você existir, tá?

Portanto, repense suas antigas promessas de relacionamento aberto e aprenda a respeitar o meu espaço, antes que eu arrume minhas malas e vá embora, viver numa distante e isolada colheita feliz. Porque antes forever alone que mal acompanhado, rum. Outra coisa: Alguém pra me curtir e cutucar é o que não vai faltar. Ah, falei. Pare de me sufocar e me deixe respirar. E-U P-R-E-C-I-S-O V-I-V-E-R (não, não é o meu jeitinho, tô gritando mesmo!), ok? E antes que você venha novamente me iludir, com dezenas de followers, centenas de retweets. favorites e milhares de declarações de amor, disfarçadas de mentions, devo dizer: Twitter, me deixa viver ou unfollow em você.

Com amor,
@pettersonfarias

Entre Linhas

 

Tu escreves pra sentir, pra curar, pra passar.

Tu escreves por sentir, tu escreves por amar.

Escreves e aos pés das tuas letras vão os mais indefiníveis verbos.

E acentuando as tuas palavras vão as mais repetitivas conjugações.

Mas tu escreves e eu te leio, eu te percebo.

Tu escreves e eu te decoro.

Tu escreves, escreves e escreves.

E eu te leio, te percebo, te leio, te percebo…

Sem parar.

 

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Talvez demore pra uns e pra outros demore bem mais, uma vida quem sabe. Mas que o sujeito não morre ignorante, não morre alheio, isso é fato. Porque se a vida perde tempo demais com aqueles que relutam e simulam cegueira ao óbvio, ela encarrega o tempo, o outro, o próximo, o nem tão próximo assim.

A vida dá um jeito, meu amigo, mas ela não nega a nenhum de nós a informação, a consciência. E escreve em letras garrafais pra que qualquer um perceba, veja, processe, absorva. Pra que ninguém com excessiva esperteza lhe acuse de irresponsável ilegibilidade.

Agora, se você espera dela critérios, dedos sensíveis e eufemismos, devo dizer, o teu fim é um só: Desgosto. Sim, porque se de firulas e cerimônias todas as tuas relações estão cheias, ouso dizer, até acostumadas, nisto ela faz questão de ser a tua mais completa antítese.

Vai dizer que nunca percebeu o quão tapa na cara a vida é? Um poço de franquezas, de verdades que te cortam, novidades que te atravessam. Bossa Nova só por fora e olhe lá. Por dentro, ela te embala mesmo é por entre acordes de canções de protesto. Vida nua. Invasiva, chata, arrogante. Crua.

Estratégica, ardilosa e sorrateira, ela te pega de jeito no grau mais elevado das tuas autossuficiências e sem medo algum de atirar ao chão a tua tão vulnerável autoestima, ela grita: Quantas vezes tu tentares transformar cada solidão em fortaleza, reduzirei a pó todas as tuas tentativas. Quantas vezes te achares completo, não terei piedade em te lembrar que não passas de metade.

 

Pode Entrar

Pode Entrar
Foto: Petterson Farias

Eram cacos pontiagudos e afiados, espalhados pelo chão. Eram rimas dos teus sentidos confundidos com as raízes dos meus anseios. E todos eles sem abrigo. Eram pedaços e improvisos, todos eles recortados, espatifados, desconexos… Compatíveis. Eram metáforas tão sutis que refletiam e eu não via. Ironias tão corrosivas que chegavam a me doer. Mas eram pontos, não vírgulas. Três pontos, precisamente, e entre eles o indefinível.

Eram minhas impressões. Eram tuas interpretações. Todas elas embaraçadas. Eram textos em meio a fantasias. Eram palavras me devolvendo mundos engavetados, textos antigos e mal escritos. Eram rabiscos de ideias sem acentos. Eram frases querendo me encontrar. Era meu cantinho preferido. Aliás, ainda é! E por muito tempo ainda será. Seja bem-vindo!