Axé dos bons

Foto: Petterson Farias

Quando eu botei os pés na tua avenida pela primeira vez, onde, antes de mim,
tantos amores te fizeram dançar, pensei: vir de longe valeu, era nossa hora de amar

O corpo suou,
tua mão me alcançou,
tudo em mim tremeu,
o coração concordou

Pagode da Bahia, axé dos bons,
batuques, percussões e rebolados
mas meus pés do chão foi você quem tirou 

Barra, Ondina, Belém, Bahia,
Campo Grande, desejo imenso,
amor salvador, não vou mentir:
o coração amou

Filhos de Gandhy passaram,
os corpos cansaram,
o carnaval acabou
pipoca doce, só você e eu,
bloco pra pular a dois,
o coração cantou

Canção de amor sem fim,
sol de meio dia, Farol da Barra,
tesões e refrões, mil motivos pra ficar

Amor de carnaval, além das cinzas
o trio passou, o coração pediu
você ficou

Quando eu guardei as nossas fantasias, as ruas se calaram
e o amor cantou baixinho o ruído bom, mas doloroso, do fim
eu sabia: vir de longe valeu a pena, mas era nossa hora…
outros blocos pediam licença pra passar

 Fizemos nossa própria canção, pra cantar
 e fazer o corpo dançar sempre que lembrar
enquanto você ficou, o coração sorriu
dias de som, sol, oxentes e dendê
carnaval dos bons, pra nunca esquecer

Axé dos bons… E o coração,
consegues ouvir?
Ele continua a cantar!

https://www.instagram.com/cacosmetaforicos/

Esconda seu preconceito no armário

Arte: Herbert Loureiro

‘Fulano tá demorando sair do armário’
Quem decide a hora certa de se assumir é o próprio fulano, não você. Se é na adolescência ou na velhice, isso não é um problema seu. Só respeite o tempo dele!

‘Não tenho nada contra os gays, tenho até amigos que são, mas…’
Se você não tem nada contra algo, esse “mas” na sua frase nem deveria existir.

‘Eu aceito meu filho como ele é, só tenho medo do preconceito que ele pode sofrer lá fora’
Reflita se nesse seu discurso não há um preconceito velado, que você só não quer admitir e, por isso, fala do mundo “lá fora”. Sofrendo preconceito ou não, o apoio e o respeito da família são fundamentais, não negue isso a ele!

‘A opção sexual dela é o homossexualismo…’
Na verdade, ORIENTAÇÃO sexual, porque não optamos. Não há um momento na vida em que a gente escolhe direita ou esquerda, marca um X na opção ‘GAY’ como numa questão do ENEM. E HOMOSSEXUALIDADE, por gentileza. O sufixo ‘ismo’ denota doença, patologia. E nós não somos doentes!

‘Eu até aceito os gays, mas não precisa ser afetado, né?!’
O que você chama de afetação pode ser a essência da pessoa, o modo dela de estar no mundo. Sendo afeminado, tímido, séria, engraçado, envergonhada ou “caminhoneira”, cada um tem um jeito único de ser e ninguém precisa se encaixar em comportamentos pré-definidos. Pratiquemos a diversidade e a tolerância que a gente tanto prega.

‘Quer ser gay, que seja dentro de casa, não em público. Ainda mais perto de crianças’
Homossexualidade não se passa, não é doença contagiosa, que uma criança só de olhar vai “pegar”. Se fosse assim, eu teria crescido hétero, porque vivi toda minha infância e adolescência convivendo apenas com casais héteros. Me parece um pouco óbvio isso, não?

‘Agora em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, eu sou contra’
Então se case com uma pessoa do sexo oposto e siga sua vida.

‘Mas quem é o homem e quem é a mulher na relação de vocês?’
Espera! Deixa eu explicar mais uma vez: a relação é homossexual JUSTAMENTE porque é entre pessoas do MESMO sexo, logo, ou são dois homens ou são duas mulheres. Se houver um homem e uma mulher, a relação é heterossexual!

‘Nossa, pros gays agora tudo é ofensa!’
Pare de dizer pelo outro o que ele deve encarar como ofensa ou não. Só ele sabe o que sente; só ele sabe como é carregar nas costas o resultado de todas suas vivências, experiências e memórias. Se a pessoa te diz que teu comportamento em relação a ela não é legal, porque a constrange, ofende ou machuca, ouça, reveja, reflita, procure o diálogo, mude de comportamento ou se afaste. E isso vale pra tudo, hein?!

‘Não curto afeminados’
Frases como essa lidas aos montes em aplicativos gays não contribuem em nada pra nossa luta. Reduzir uma pessoa ao seu comportamento ‘afeminado’, além de te fechar pra trocas incríveis com alguém que é muito mais que isso, vai contra toda a tolerância que você mesmo pede. Suas preferências, direito seu. Mas que tal focar no que você gosta ao invés de focar no que não prefere? Mesmo entre os gays, há privilégios. Gay discreto, sem dúvida, sofre menos preconceitos que uma bicha espalhafatosa, mas ambos são dignos de respeito, portanto, não prive o veado afeminado desse direito. 

‘Ainda me acho preconceituoso, mas quero mudar’
Eu também, bora conversar?

Estou no instagram:
instagram.com/pettersonfarias
instagram.com/cacosmetaforicos

Respeita meu LUGAR DE FALA

Você só trata com desdém a expressão LUGAR DE FALA porque sempre foi ouvido. Porque sua voz sempre teve força e seus desejos ao alcance das mãos. Num país que tem o maior índice de assassinatos de homossexuais do mundo, o gay, muitas vezes, nem sequer tem tempo de reivindicar sua vez de falar. Numa sociedade em que mulheres são assediadas, agredidas e violentadas por seus maridos, namorados e até líderes espirituais, pra quem mesmo elas direcionam o seu grito se sabem que todo mundo finge não escutar?

LUGAR DE FALA é aquela necessidade que todos nós temos de, pelo menos uma vez na vida, falar por nós mesmos, sem a interferência de outras bocas, outras mãos, máscaras ou mordaças; aquele desejo de dizer pro mundo o que a gente vive e sente, mas ninguém entende; de falar sobre nossas faltas e dores pra quem nunca as sentiu na pele; de expor nossas cicatrizes sem medo de ouvir o outro dizer por mim que elas nunca existiram.

Se você diz que LUGAR DE FALA é um termo idiota, coisa de gente fresca, que não tolera quem pensa diferente, é porque você ainda não entendeu nada do que significa empatia; você não se propôs a fazer um esforço mínimo de se colocar no lugar de quem pede ajuda.

Lugar de Fala não é mimimi nem vitimismo, é oxigênio e salva vidas. E toda vez que você silencia a voz de alguém, desdenhando da sua coragem de gritar, reclamar e espernear, é como se, passando próximo a um cativeiro, você ouvisse alguém pedir socorro e ignorasse: você contribui pra perpetuação de uma realidade que oprime, aleija, castiga, prende e mata.

Tente, só por hoje, ouvir essa voz que vem do cativeiro e, em silêncio, escutar atentamente, depois perguntar o que essa pessoa está passando e o que ela precisa pra se livrar dessa situação. E se você não puder ajudar, não atrapalhe, aponte caminhos, recomende quem pode ajudar. Só por hoje não compactue com a dor do outro ignorando sua voz ou tentando falar mais alto que ele. Reconheça seus privilégios e entenda que por mais que o outro não seja igual a você, ele merece tão quanto as mesmas oportunidades de crescer, se desenvolver, ser livre e feliz.

E reflita aí:

Já pensou sua infância inteira baseada em brincadeiras e brinquedos escolhidos pelo teu irmão mais velho porque sua mãe nunca te deixou falar do que você gosta de brincar?

Você já se viu num país estrangeiro, morto de fome, sem conseguir se fazer entender, porque não dominava o idioma, e sonhou com alguém que pudesse, naquele momento, traduzir a sua fome pro outro?

Você já se aborreceu com aquele casal que veio visitar a sua casa e, sem te perguntar nada, quis decidir por você a melhor forma de criar os seus filhos?

Já se deparou com aquele marmanjo, no recreio da escola, ameaçando te bater e desejou seu irmão mais velho ali perto pra te defender?

Você já se chateou com aquela professora que pediu um trabalho gigante pro dia seguinte e, quando você tentou dizer que aquele prazo era impossível, ela riu dizendo que o prazo era suficiente sim?

Você já comeu o pior sabor de pizza do universo simplesmente porque decidiram pedi-lo sem te perguntar qual era o seu preferido?

Pois é. Dói quando te impedem de falar e diminuem a tua capacidade de escolher, se defender, de se proteger e de sobreviver, não é? Agora imagine como vivem minorias silenciadas por décadas e séculos. Imaginou? E ainda assim você acha correto e prudente homens continuarem falando pelas mulheres, héteros decidindo pelos homossexuais, brancos se expressando pelos negros e cristãos falando por todos de uma vez só?

Entenda de uma vez por todas: Lugar de Fala não quer calar a voz de ninguém, só quer projetar a voz de quem nunca falou ou de quem já tentou falar, mas você nunca escutou. Me soa justo e igualitário, pra você não? Vocês já decidiram demais por nós, agora deixa que a gente decida, deixe que da nossa vida a gente cuida.

A Dois

Foto: Renan Viana

Quando eu cheguei por aqui, eu mal acertava o giro da chave na porta, imagine o compasso de uma vida a dois. Tanto tesão e desacerto se embaraçando nessa nossa história que eu me assustava. Por onde começar? Você me disse pra eu não ter medo. E eu fui ficando até entender que a rotina, ao invés de rasurar sentimentos, pode aperfeiçoá-los, basta a gente querer.

Antes, amar, pra mim, eram só poros, saliva, abraços e desejo. Mas o amor era mais embaixo. Conjugação do espaço. Divisão do verbo. Lista de supermercado. Vinho barato. E nós. E eu só descobri isso quando você chegou, em cima da hora, pra morar debaixo do mesmo teto, entre euteamos, seriados, silêncios oportunos, receitas erradas e muito amor. Hoje, até a mesmice se pinta de uma cor diferente todo santo dia, só pra nos fazer feliz.

Casa Aberta

Foto: Petterson Farias

As pessoas demoram a acreditar nas rupturas. Já vi muitos amigos padecendo, por tentar levar às últimas consequências relações que poderiam acabar de forma amigável, só por achar que, por algum poder superespecial, conseguiriam reverter desgastes irremediáveis.

Não há nenhum mal em se afastar, em ser franco consigo mesmo e com o outro ao admitir que as coisas não se encaixam mais como antes. E outra: afastamentos e rupturas não precisam ter prazo de validade, pelo contrário. Algumas vezes, quando rompi com alguém, tempos depois, a conexão perdida foi retomada e de maneira ainda mais incrível. Isso porque o tempo que perderíamos somando ainda mais desgastes, aproveitamos para amadurecer; para dialogar com gente diferente; para oxigenar a alma com estímulos novos; e se dar conta, por fim, de que aquele relacionamento era sensacional, a gente é que não tava num bom momento para insistir.

“Ah, mas numa dessas, a pessoa pode ir e nunca mais voltar”. E quem tem o controle disso? Prendendo ou não, todo mundo tem o direito de ir e nunca mais voltar. Isso independe de mim. Entender isso é tirar uma tonelada de peso das costas e, mais leve, a gente consegue seguir. Algumas vezes, seguir junto por muito mais tempo, outras, até pra sempre, mas sem receio, sem neura, sem medo. Amigo, colega, namorado, esposa não são propriedades. Tem hora que sintoniza, pluga, casa, e é massa! Mas tem hora que não, paciência! E a nossa vida, não canso de repetir, é casa de portas abertas: as pessoas têm mais é que entrar e sair quando bem entender.

Excesso

Foto: Petterson Farias
Foto: Petterson Farias

Hoje nascer, crescer e morrer não basta. Um intervalo e tudo muda. Ufa! Ainda bem! Mas pra cada caminho definido, mil renúncias que inquietam. E se? Quantos se’s só nesse dia já atormentaram o juízo da gente? Entre negócios, abas, selfies, compromissos, planos e viagens, não sobra tempo pra contar.

Uma me ama, mas a outra é tão linda, não custa experimentar, né? Lá parece menos violento, mas morar longe da família? Passei em exatas, mas Medicina também é meu sonho. Eu gosto de rock, mas tocar sertanejo não dá mais dinheiro? Por que rosa se amarelo? Por que 6S se 7 Plus? Por que só América Latina e não todo continente europeu? Por que só um ao invés de mil?

E entre a cruz e o sim, a espada e o não, a gente vai se sentindo no direito. De mobilizar mundos, fundos e acasos em busca do que a gente quer, pra, antes mesmo de dobrar a esquina, já não querer tanto assim. Descartar-se nunca foi tão fácil. Um mundo possível a cada compra e a gente querendo viver em todos. Enfia mais que cabe, vai por mim. Profundidade? Há tempos só habitamos o raso. E aí eu te pergunto: quantas estaca-zeros pra se chegar no instante decisivo, aquele que vai mudar a nossa vida pra sempre? Aquele dia em que toda escolha será satisfatória e nenhuma rejeição parecerá tão interessante assim. Esse momento chega antes de a gente se deixar levar ou a busca é eterna? Eu quero meu verde mais verde sem olhar pro verde do vizinho, mas eu tenho lá minhas dúvidas.

De que lado ficar: é preciso mesmo escolher? Já não acredito com tanta força e sinto menos ainda. Mas quão forte tem que ser o sentimento pra me mover do chão, pra me tirar daqui? Começo a achar bonitinha a cor desse muro, não quero ajuda pra descer. Enquanto não decido o que quero da vida, vou fingindo pro mundo que amo minha rotina e sigo cada vez mais certo de que o mal da nossa geração é esse excesso de possibilidades.

Modo Avião

modo-aviao
Foto: Diego Dalmaso

De longe, tudo parece impossível
mas o que é mesmo a distância
se o que eu tenho aqui sinto tão dentro?

De perto, a coisa muda de figura
ainda mais quando a tua boca diz pra mim
um riso que quase ninguém vê

De cima, casinhas tão pequenas
geografias finitas, cidades mínimas
enquanto lá embaixo, aquele esforço enorme pra te alcançar
uma vida contada em milhas, trajetos absurdos,
quereres e renúncias brincando de ser feliz.

Vida é perspectiva. E ângulo é tudo!
Eu agora voo, pressurizado entre olhares estranhos e 30 mil pés.
Poltronas retas, cintos atados, nossa playlist em modo avião.
Vou ao teu encontro, longe de tudo, perto de nós, sendo só teu.
Quer perspectiva mais linda?