Seres Livres

As pessoas demoram a acreditar nas rupturas. Já vi muitos amigos próximos padecendo por tentar levar às últimas consequências relações que poderiam acabar de forma amigável, só por achar que, por algum poder superespecial, conseguiriam reverter desgastes irremediáveis.

Não há nenhum mal em se afastar, em ser franco consigo mesmo e com o outro ao admitir que as coisas não se encaixam como antes. E outra: afastamentos e rupturas não precisam ter prazo de validade, pelo contrário. Algumas vezes, quando rompi com alguém, tempos depois, a conexão foi retomada e de maneira ainda mais incrível. Isso porque o tempo que perderíamos somando desgastes, aproveitamos para amadurecer; para dialogar com gente diferente; para oxigenar a alma com novos estímulos; para a poeira abaixar; e se dar conta, por fim, de que aquela pessoa era incrível, a gente é que não estava num bom momento para insistir.

“Ah, mas numa dessas, a pessoa pode ir e nunca mais voltar”. E quem tem o controle disso? Prendendo ou não, as pessoas têm o direito de ir e nunca mais voltar. Isso independe de mim. Entender essa dinâmica é tirar um enorme peso das costas e, mais leve, seguir. Algumas vezes, seguir junto por muito tempo, outras, até para sempre, mas sem receio, sem medo. 

Amigo, colega, namorado, esposa não são propriedades. Tem hora que sintoniza, pluga, casa e é bom. Mas tem hora que não. E a vida da gente, não canso de repetir, é casa de portas abertas: as pessoas têm mais é que entrar e sair quando bem entender. Seres livres acima de tudo!

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Respeita meu LUGAR DE FALA

Você só trata com desdém a expressão LUGAR DE FALA porque sempre foi ouvido. Porque sua voz sempre teve força e seus desejos ao alcance das mãos. Num país que tem o maior índice de assassinatos de homossexuais do mundo, o gay, muitas vezes, nem sequer tem tempo de reivindicar sua vez de falar. Numa sociedade em que mulheres são assediadas, agredidas e violentadas por seus maridos, namorados e até líderes espirituais, pra quem mesmo elas direcionam o seu grito se sabem que todo mundo finge não escutar?

LUGAR DE FALA é aquela necessidade que todos nós temos de, pelo menos uma vez na vida, falar por nós mesmos, sem a interferência de outras bocas, outras mãos, máscaras ou mordaças; aquele desejo de dizer pro mundo o que a gente vive e sente, mas ninguém entende; de falar sobre nossas faltas e dores pra quem nunca as sentiu na pele; de expor nossas cicatrizes sem medo de ouvir o outro dizer por mim que elas nunca existiram.

Se você diz que LUGAR DE FALA é um termo idiota, coisa de gente fresca, que não tolera quem pensa diferente, é porque você ainda não entendeu nada do que significa empatia; você não se propôs a fazer um esforço mínimo de se colocar no lugar de quem pede ajuda.

Lugar de Fala não é mimimi nem vitimismo, é oxigênio e salva vidas. E toda vez que você silencia a voz de alguém, desdenhando da sua coragem de gritar, reclamar e espernear, é como se, passando próximo a um cativeiro, você ouvisse alguém pedir socorro e ignorasse: você contribui pra perpetuação de uma realidade que oprime, aleija, castiga, prende e mata.

Tente, só por hoje, ouvir essa voz que vem do cativeiro e, em silêncio, escutar atentamente, depois perguntar o que essa pessoa está passando e o que ela precisa pra se livrar dessa situação. E se você não puder ajudar, não atrapalhe, aponte caminhos, recomende quem pode ajudar. Só por hoje não compactue com a dor do outro ignorando sua voz ou tentando falar mais alto que ele. Reconheça seus privilégios e entenda que por mais que o outro não seja igual a você, ele merece tão quanto as mesmas oportunidades de crescer, se desenvolver, ser livre e feliz.

E reflita aí:

Já pensou sua infância inteira baseada em brincadeiras e brinquedos escolhidos pelo teu irmão mais velho porque sua mãe nunca te deixou falar do que você gosta de brincar?

Você já se viu num país estrangeiro, morto de fome, sem conseguir se fazer entender, porque não dominava o idioma, e sonhou com alguém que pudesse, naquele momento, traduzir a sua fome pro outro?

Você já se aborreceu com aquele casal que veio visitar a sua casa e, sem te perguntar nada, quis decidir por você a melhor forma de criar os seus filhos?

Já se deparou com aquele marmanjo, no recreio da escola, ameaçando te bater e desejou seu irmão mais velho ali perto pra te defender?

Você já se chateou com aquela professora que pediu um trabalho gigante pro dia seguinte e, quando você tentou dizer que aquele prazo era impossível, ela riu dizendo que o prazo era suficiente sim?

Você já comeu o pior sabor de pizza do universo simplesmente porque decidiram pedi-lo sem te perguntar qual era o seu preferido?

Pois é. Dói quando te impedem de falar e diminuem a tua capacidade de escolher, se defender, de se proteger e de sobreviver, não é? Agora imagine como vivem minorias silenciadas por décadas e séculos. Imaginou? E ainda assim você acha correto e prudente homens continuarem falando pelas mulheres, héteros decidindo pelos homossexuais, brancos se expressando pelos negros e cristãos falando por todos de uma vez só?

Entenda de uma vez por todas: Lugar de Fala não quer calar a voz de ninguém, só quer projetar a voz de quem nunca falou ou de quem já tentou falar, mas você nunca escutou. Me soa justo e igualitário, pra você não? Vocês já decidiram demais por nós, agora deixa que a gente decida, deixe que da nossa vida a gente cuida.

A Dois

Foto: Renan Viana

Quando eu cheguei por aqui, eu mal acertava o giro da chave na porta, imagine o compasso de uma vida a dois. Tanto tesão e desacerto se embaraçando nessa nossa história que eu me assustava. Por onde começar? Você me disse pra eu não ter medo. E eu fui ficando até entender que a rotina, ao invés de rasurar sentimentos, pode aperfeiçoá-los, basta a gente querer.

Antes, amar, pra mim, eram só poros, saliva, abraços e desejo. Mas o amor era mais embaixo. Conjugação do espaço. Divisão do verbo. Lista de supermercado. Vinho barato. E nós. E eu só descobri isso quando você chegou, em cima da hora, pra morar debaixo do mesmo teto, entre euteamos, seriados, silêncios oportunos, receitas erradas e muito amor. Hoje, até a mesmice se pinta de uma cor diferente todo santo dia, só pra nos fazer feliz.

Casa Aberta

Foto: Petterson Farias

As pessoas demoram a acreditar nas rupturas. Já vi muitos amigos padecendo, por tentar levar às últimas consequências relações que poderiam acabar de forma amigável, só por achar que, por algum poder superespecial, conseguiriam reverter desgastes irremediáveis.

Não há nenhum mal em se afastar, em ser franco consigo mesmo e com o outro ao admitir que as coisas não se encaixam mais como antes. E outra: afastamentos e rupturas não precisam ter prazo de validade, pelo contrário. Algumas vezes, quando rompi com alguém, tempos depois, a conexão perdida foi retomada e de maneira ainda mais incrível. Isso porque o tempo que perderíamos somando ainda mais desgastes, aproveitamos para amadurecer; para dialogar com gente diferente; para oxigenar a alma com estímulos novos; e se dar conta, por fim, de que aquele relacionamento era sensacional, a gente é que não tava num bom momento para insistir.

“Ah, mas numa dessas, a pessoa pode ir e nunca mais voltar”. E quem tem o controle disso? Prendendo ou não, todo mundo tem o direito de ir e nunca mais voltar. Isso independe de mim. Entender isso é tirar uma tonelada de peso das costas e, mais leve, a gente consegue seguir. Algumas vezes, seguir junto por muito mais tempo, outras, até pra sempre, mas sem receio, sem neura, sem medo. Amigo, colega, namorado, esposa não são propriedades. Tem hora que sintoniza, pluga, casa, e é massa! Mas tem hora que não, paciência! E a nossa vida, não canso de repetir, é casa de portas abertas: as pessoas têm mais é que entrar e sair quando bem entender.

Excesso

Foto: Petterson Farias
Foto: Petterson Farias

Hoje nascer, crescer e morrer não basta. Um intervalo e tudo muda. Ufa! Ainda bem! Mas pra cada caminho definido, mil renúncias que inquietam. E se? Quantos se’s só nesse dia já atormentaram o juízo da gente? Entre negócios, abas, selfies, compromissos, planos e viagens, não sobra tempo pra contar.

Uma me ama, mas a outra é tão linda, não custa experimentar, né? Lá parece menos violento, mas morar longe da família? Passei em exatas, mas Medicina também é meu sonho. Eu gosto de rock, mas tocar sertanejo não dá mais dinheiro? Por que rosa se amarelo? Por que 6S se 7 Plus? Por que só América Latina e não todo continente europeu? Por que só um ao invés de mil?

E entre a cruz e o sim, a espada e o não, a gente vai se sentindo no direito. De mobilizar mundos, fundos e acasos em busca do que a gente quer, pra, antes mesmo de dobrar a esquina, já não querer tanto assim. Descartar-se nunca foi tão fácil. Um mundo possível a cada compra e a gente querendo viver em todos. Enfia mais que cabe, vai por mim. Profundidade? Há tempos só habitamos o raso. E aí eu te pergunto: quantas estaca-zeros pra se chegar no instante decisivo, aquele que vai mudar a nossa vida pra sempre? Aquele dia em que toda escolha será satisfatória e nenhuma rejeição parecerá tão interessante assim. Esse momento chega antes de a gente se deixar levar ou a busca é eterna? Eu quero meu verde mais verde sem olhar pro verde do vizinho, mas eu tenho lá minhas dúvidas.

De que lado ficar: é preciso mesmo escolher? Já não acredito com tanta força e sinto menos ainda. Mas quão forte tem que ser o sentimento pra me mover do chão, pra me tirar daqui? Começo a achar bonitinha a cor desse muro, não quero ajuda pra descer. Enquanto não decido o que quero da vida, vou fingindo pro mundo que amo minha rotina e sigo cada vez mais certo de que o mal da nossa geração é esse excesso de possibilidades.

Modo Avião

modo-aviao
Foto: Diego Dalmaso

De longe, tudo parece impossível
mas o que é mesmo a distância
se o que eu tenho aqui sinto tão dentro?

De perto, a coisa muda de figura
ainda mais quando a tua boca diz pra mim
um riso que quase ninguém vê

De cima, casinhas tão pequenas
geografias finitas, cidades mínimas
enquanto lá embaixo, aquele esforço enorme pra te alcançar
uma vida contada em milhas, trajetos absurdos,
quereres e renúncias brincando de ser feliz.

Vida é perspectiva. E ângulo é tudo!
Eu agora voo, pressurizado entre olhares estranhos e 30 mil pés.
Poltronas retas, cintos atados, nossa playlist em modo avião.
Vou ao teu encontro, longe de tudo, perto de nós, sendo só teu.
Quer perspectiva mais linda?

 

Do Amigo

Foto: Petterson Farias

Eu já desejei que te batessem na rua, só pra tu aprenderes a falar menos, não vou longe, ontem mesmo. Andamos juntos no escuro, agarrei tua mão gelada e corri por ruas tortuosas num final de semana de praia, sim, com altas doses etílicas na cabeça. Depois de um feriado libertino, te acordei aos gritos perguntando pela posse da presidente, mas ainda era Dia de Finados. Ri de ti caindo da rede. Dividi a minha rede contigo. Caí contigo da rede!

Eu te encontrei quando todo mundo dizia que não se consegue ter amigos no trabalho e li várias mensagens tuas no whatsapp imitando a tua voz. Topei ver filme ruim no cinema só pra ter tua companhia e constatei que viagem sem ti não é viagem boa. Falei pra não te meteres com gente errada e que pegar aquele escroto era cilada. Claro que eu também já quis te matar, por pegar antes de mim todos os caras que eu desejei.

Corrigi teu português pífio e te dei conselhos, como se deles eu também não precisasse. Quis te namorar, só pra te provar que és incrível demais pra continuar solteira. Agradeci quando, na falta dos grandes amores, foste a melhor companhia e acalmou meu coração, porra, por que a gente nunca transou? Talvez nem saibas disso, mas uma vez pedi dinheiro emprestado pra não faltar o teu aniversário. Massageei tuas costas pra dor da ressaca passar rápido, vomitei teu sítio e, muito bêbado, joguei um copo de água gelada na tua cara. Mas também passei meses planejando o melhor presente do mundo pra te dar, só pra te ver feliz. Falei de ti pros meus amigos com tanto entusiasmo que eles desejaram ser teus amigos também.

Já confundi amor com amizade e quase te perdi. Eu ouvi teu choro de madrugada, isso é hora, mana? Odiei os machos que te sacanearam e te abracei apertado no meio da balada quando a nossa música preferida tocou. Já atravessamos Minas Gerais com R$ 1,50 no bolso. Mas levamos o hotel abaixo quando nosso dinheiro caiu na conta. Falei tão bem de ti pra minha mãe, que ela achou que eu tava te comendo. Sim, chorei escondido no banheiro quando tu me chamaste pra ser padrinho do teu casamento. Chorei no avião, chorei no altar, chorei te abraçando. Que noite incrível! Falei pra ti que era gay e só me abraçaste, dizendo que isso não mudava absolutamente nada. Tu dividiste tua comida e a tua casa comigo quando eu não sabia o que era futuro e foi além ao me pedir perdão, quando eu achei que nossas vidas nem mais se cruzariam.

As pessoas se constrangeram com teus risos escandalosos, eu fui lá e ri contigo. Perdi amizades por tua causa e que vontade que eu tive de meter a mão na tua cara, mas a varanda da minha casa sempre foi mais legal contigo nela. Que não nos ouçam, mas um dia deixei de ir pra festa, só porque disseste que não ia. Derrubei a TV do teu quarto, com medo dos teus gatos. Abriste a tua casa pra mim e nem brigaste comigo quando deixei a porra da garrafa de água encher até transbordar, molhando a cozinha inteira. Tu me confiaste a senha das tuas redes sociais e do teu cartão de crédito, eu te confiei meus podres amores, minhas carências e meus egoísmos.

Tu foste porta de entrada em lugares que só em sonhos eu imaginava pisar. A gente se abraçou chorando no réveillon depois de meses chateados um com o outro e te reconheceram num aplicativo de pegação depois que te viram no meu snapchat. Tropeçamos juntos entre cervejas, moto-táxis, gritos e alegrias no melhor carnaval do mundo. Pensamos diferentes, mas nunca tentamos anular as preferências um do outro. Foste a primeira pessoa que corri pra contar quando comecei a namorar. Chorei quando nos despedimos e até deixei de ir naquele restaurante que só íamos juntos. Eu fui a pior pessoa durante o teu luto e, mesmo assim, continuas sendo o melhor contraponto dos meus exageros.

Tentaste manter em segredo, mas eu descobri quem tu estavas pegando escondido, seu sacana! Eu te confidenciei segredos, sem a gente nunca nem ter se visto pessoalmente. Teu telefone é o único que sei de cabeça até hoje. Li livros, ouvi canções, escrevi textos e só pensei em ti. Eu fiz uma piada pesada em público e só tu entendeste. Como gargalhamos! E no silêncio, refleti sobre o prazer que é ter alguém em quem confiar, mesmo que a gente nunca tenha se dito isso.

Ouvi teus desabafos numa noite gelada do Chile e dividi uma casa contigo e mais oito na Ilha do Marajó. Guardo até hoje nossos melhores dias na faculdade, no quintal da tua casa, nos aniversários da tua família. Eu abracei teu filho com todo amor do mundo. Antecipei teus gestos, desmenti teus discursos e, olhando nos teus olhos, falei que pra mim não precisavas inventar nada, eu sabia de tudo! A dor e a delícia de se conhecer alguém até do avesso! Amaldiçoei o mundo quando rompemos a amizade, mas sei que o que ficou é o que importa. Entendi que somos melhores quando distantes e isso não invalida em nada o que sentimos um pelo outro. Chorei tua morte durante uma semana, como se um pedacinho de mim estivesse indo ali, enterrado contigo. Mas agradeço todos os dias por teres cruzado o meu caminho!

Hoje, tu transitas neste texto, cheio de histórias e memórias que têm feito de mim o que sou. Tu sabes que estás aqui, não preciso te dizer isso. O que talvez tu não saibas é que te ter por perto ainda me dá sossego e me torna um sujeitinho menos ranzinza e muito mais feliz.